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Ben Roberts-Smith em frente ao tribunal federal em Sydney, no ano passado. A sua mãe enviou um e-mail aos deputados da Coligação atacando o proeminente membro do Partido Liberal, Andrew Hastie. Foto: AAP
Díli, 07 de abril de 2026 (RAFA.tl) – Ben Roberts-Smith, o militar australiano vivo mais condecorado, foi detido hoje no Aeroporto de Sydney e deverá ser acusado de cinco crimes de guerra por homicídio relacionados com o seu serviço no Afeganistão, segundo comunicado da Polícia Federal Australiana (AFP).
A detenção marca o culminar de quase uma década de investigações criminais e representa a mais grave acusação já formulada contra um ex-militar australiano.
Ben Roberts-Smith, de 47 anos, deverá comparecer perante um tribunal de Nova Gales do Sul ainda hoje, estando previstas declarações da AFP e do Gabinete do Investigador Especial (OSI) aos jornalistas.
A detenção ocorre após o processo em que Roberts-Smith, sem êxito, intentou uma acção por difamação contra os jornais do grupo Nine sobre as alegações de crimes de guerra relacionadas com as suas missões no Afeganistão. Roberts-Smith continua a negar todas as acusações e a contestar as conclusões dos tribunais cíveis.
Benjamin Roberts-Smith nasceu em Perth a 1 de novembro de 1978 e alistou-se no exército australiano em 1996, aos 18 anos. Em 1999, foi enviado duas vezes a Timor-Leste, no âmbito da Interfet.
Em 2003, foi selecionado para o Regimento Especial de Serviços Aéreos (SASR), a força de elite das Forças Armadas australianas.
Tornou-se o soldado mais condecorado vivo da Austrália após receber a Cruz de Vitória – a mais alta distinção militar do país – pela sua ação em combate no Afeganistão em 2010.
Em 2018, porém, o Sydney Morning Herald, The Age e o Canberra Times publicaram reportagens a acusá-lo de múltiplos crimes de guerra, incluindo a participação no assassínio de civis afegãos desarmados. Para recuperar a sua reputação, Roberts-Smith optou por intentar uma acção de difamação contra os jornais – decisão que viria a revelar-se fatal para a sua imagem.
Em junho de 2023, o juiz Anthony Besanko indeferiu o processo de difamação, concluindo que as publicações demonstraram, segundo o padrão exigido pela lei australiana de difamação, que Roberts-Smith assassinou quatro afegãos desarmados e infringiu as regras de combate. Besanko escreveu que ele “desonrou o seu país” com a sua conduta no Afeganistão.
As conclusões do tribunal civil foram implacáveis quanto aos atos em causa. Entre os episódios considerados substancialmente verdadeiros pelo juiz, figuravam a participação no assassínio de um pastor algemado, Ali Jan, em Darwan em setembro de 2012 – após Roberts-Smith o ter alegadamente pontapeado por um precipício e ordenado que o subordinado o abatesse a tiro. Foi ainda considerado verdadeiro o envolvimento em duas mortes na instalação conhecida como “Whiskey 108” em 2009, incluindo ter alegadamente baleado um homem pelas costas e ordenado a um soldado novato que matasse um prisioneiro mais idoso; e ter dirigido soldados parceiros afegãos para abaterem um detido em Chinartu.
Uma apelação ao Tribunal Federal Pleno, ouvida ao longo de dez dias a partir de 5 de fevereiro de 2024, foi indeferida por unanimidade a 16 de maio de 2025. O Tribunal Superior da Austrália recusou uma petição de Roberts-Smith para recurso extraordinário em 4 de setembro de 2025, ordenando-lhe ainda que pagasse as custas dos réus.
O Gabinete do Investigador Especial (OSI), criado em 2021 na sequência do Relatório Brereton, tem vindo a trabalhar em conjunto com a AFP para reunir provas suficientes para o limiar criminal. Trata-se da investigação criminal mais complexa já conduzida em matéria de crimes de guerra por militares australianos.
O Relatório Brereton, divulgado em forma fortemente censurada em 2020 após quatro anos de investigação, chocou o público australiano ao revelar uma cultura de homicídios ilegais, rituais de iniciação macabros e encobrimentos sistemáticos no seio das forças especiais destacadas no Afeganistão.
O relatório encontrou provas credíveis de 39 homicídios ilegais cometidos por forças especiais australianas, e recomendou que 19 militares atuais ou antigos fossem investigados.
Até à detenção de hoje, apenas um outro ex-soldado – Oliver Schulz – havia sido formalmente acusado de um crime de guerra no âmbito dessas investigações, por ter abatido um civil afegão desarmado em 2012.
Roberts-Smith continua a afirmar a sua inocência.
FIM
Escrito por RafaFM
Ex-soldado australiano detido e acusado de cinco homicídios no Afeganistão
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