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Díli, 21 de abril de 2026 (RAFA.tl) – A grande maioria das pessoas a viver com VIH em Timor-Leste continua a enfrentar estigma e discriminação significativos, com 75% a falhar doses de tratamento antirretroviral por medo de que o seu estado de saúde seja descoberto.
As conclusões constam do relatório “People Living with HIV Stigma Index 2.0 – Timor-Leste 2024”, elaborado pela organização Estrela+, com apoio técnico da Menzies School of Health Research e financiamento do UNFPA divulgado hoje em Díli.
O estudo demonstra que o medo de exposição tem consequências diretas e graves na adesão ao tratamento.
Dos participantes inquiridos, 75% falharam pelo menos uma dose de tratamento antirretroviral nos últimos 12 meses por medo de que alguém descobrisse o seu estado serológico. 70,2% não iniciaram ou atrasaram o início do tratamento pelo mesmo motivo.
Dois terços hesitaram em fazer o teste de VIH por receio de como os outros reagiriam a um resultado positivo.
Dez participantes chegaram a interromper o tratamento porque temiam que os profissionais de saúde tratassem mal ou divulgassem o seu estado sem consentimento.
O estudo aponta a divulgação não autorizada do estado serológico como uma das principais fontes de dano.
Mais de 20% dos participantes relataram que o seu estado serológico foi divulgado a terceiros sem o seu consentimento, incluindo por parte de profissionais de saúde.
Nos 12 meses anteriores ao inquérito, 9,1% dos participantes dizem ter vivido o facto de profissionais de saúde revelarem o seu estado serológico a outras pessoas sem autorização, no contexto de cuidados específicos de VIH.
Apenas 52,8% dos participantes tinham a certeza de que os seus registos médicos eram mantidos confidenciais. A divulgação sem consentimento foi significativamente mais frequente entre mulheres (84,1%) do que entre homens (14,1%).
“Realizaram análises ao sangue e informaram-me de que o meu filho era VIH positivo. Nesse momento, insistiram também que os pais fizessem o teste, e tanto o meu filho como eu testámos positivo”, disse uma das inquiridas.
“Durante esse tempo, divulgaram o nosso estado a todos os membros da família. Como resultado, a minha família afastou-se de nós, e chegaram ao ponto de deixar os nossos pratos ao sol. Além disso, espalharam a notícia na comunidade de que tínhamos uma doença grave”, afirmou.
Vinte e dois participantes relataram ter sofrido violações dos seus direitos humanos, sendo a mais comum ter sido forçado a fazer teste de VIH ou a revelar o estado serológico para aceder a cuidados de saúde, reportada por nove participantes.
Apesar de Timor-Leste dispor de legislação que protege os direitos das PVVIH, quase metade dos participantes desconhecia a existência dessas leis ou acreditava que não existiam.
Apenas cerca de 13% dos participantes demonstrou confiança para desafiar ou educar outros sobre estigma e discriminação.
Outro dos dados referidos no estudo é a extensão do estigma internalizado: 216 dos 263 participantes, ou seja, 82,1%, relataram sentimentos de vergonha ou desconforto associados ao seu estado serológico em pelo menos uma das seis formas identificadas no questionário.
Os sentimentos mais comuns incluem tristeza, solidão, vergonha, medo, culpa e perda de esperança.
Entre as formas mais comuns de discriminação, os inquiridos relatos boatos espalhados por familiares ou outros, exclusão de reuniões sociais ou atividades familiares e assédio verbal.
As mulheres foram o grupo mais afetado, representando 73,1% de todos os participantes que relataram estigma e discriminação. O recrutamento para emprego foi recusado em 83,3% dos casos reportados por mulheres.
Recorde-se que a comunidade científica internacional reconhece que pessoas vivendo com VIH, sob tratamento eficaz e com carga viral indetetável, não transmitem o vírus. A testagem e o acesso a medicamentos são identificadas como as principais estratégias para responder ao VIH. O princípio “Indetetável = Intransmissível”, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e validado por múltiplos estudos internacionais, impõe que qualquer política pública se baseie nesta realidade e não em preconceitos desatualizados.
A estigmatização de pessoas seropositivas tem consequências clínicas diretas e mensuráveis. Quando o diagnóstico gera medo de discriminação, as pessoas evitam fazer o teste, atrasam o tratamento e abandonam a medicação – o que agrava a doença e aumenta o risco de transmissão. O estigma não protege ninguém: prejudica a saúde pública que diz defender.
O estudo, na sua segunda edição, envolveu inquéritos a 263 pessoas seropositivas, entre os 18 e os 71 anos, conduzidos em todos os municípios do país entre 2022 e 2023. O estudo recebeu aprovação ética do Instituto Nacional de Saúde Pública de Timor-Leste em julho de 2023.
Timor-Leste, segundo o estudo, regista uma prevalência baixa de VIH, com um total estimado de 1.742 casos em 2023, numa população de cerca de 1,34 milhões de pessoas. Nota, porém, que a incidência de novos diagnósticos está em crescimento, tendo o VIH aumentado dez vezes entre mulheres grávidas entre 2013 e 2018.
O comité de direção do estudo, liderado pela Estrela+, elaborou um conjunto alargado de recomendações, organizadas em torno de dois eixos prioritários: redução do estigma e da discriminação e construção de resiliência.
Entre as medidas propostas destacam-se a formação obrigatória de todos os profissionais de saúde em direitos humanos, confidencialidade e não-discriminação e a adoção de cuidados centrados na pessoa em todas as unidades de saúde.
Recomendam ainda a eliminação de leis que permitam testes obrigatórios ou divulgação forçada do estado serológico e a criação de mecanismos formais de denúncia de violações de direitos.
O relatório recomenda ainda a integração de apoio à saúde mental nos planos de tratamento do VIH, o reforço de programas de apoio por pares, e a implementação de educação sexual e sobre saúde reprodutiva nas escolas.
FIM
Escrito por RafaFM
Estudo revela estigma e discriminação de pessoas com VIH em Timor-Leste
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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