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Quando o feio vende: o crescente apetite na China pelo estranho e imperfeito

todaySetembro 25, 2026 13 5

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Hangzhou, 25 de setembro de 2026 (RAFA) – Uma barata num par de brincos, uma caixa de auriculares em forma de caranguejo ou um peixe-borrão para a lareira: os produtos “feios” tornaram-se um fenómeno comercial em ascensão na China, com milhões de yuan em vendas.

Na segunda edição da Exposição de Artefactos Feios, organizada pela plataforma de comércio eletrónico Taobao, em Hangzhou, centenas de objetos outrora vistos como mal concebidos ou grotescos ganharam lugar de destaque.

Intitulada “Feio, mas meu”, a mostra decorre até domingo, no parque Ooeli.

A edição deste ano é bem maior do que a estreia do ano passado, ocupando mais de 1.200 metros quadrados – quase o dobro da área anterior – e reunindo mais de 30 instalações e mais de 500 produtos disponíveis para venda na plataforma.

Segundo os organizadores, o evento atrai mais de 5.000 visitantes por dia, acima da média de 3.000 do ano passado.

A maioria dos visitantes é composta por jovens millennials e da geração Z.

Para uma geração habituada a publicidade impecável, filtros de beleza e conteúdos polidos algoritmicamente, a imperfeição oferece algo diferente, dizem especialistas: algo engraçado, algo estranho, algo reconhecidamente humano.

“Esta exposição fez-me sentir que ‘feio’ não é uma palavra negativa. É neutra. Há quem goste de coisas feias, tal como há quem não goste das bonitas”, disse uma residente de Hangzhou que visitou a mostra com amigas, em declarações à CNA.

Outro visitante, que levou o filho pequeno para conhecer algo mais criativo, notou que “vemos tantas coisas normais no dia a dia, por isso as pessoas querem algo novo e invulgar, que torne a vida mais interessante”.

Observadores dizem que a tendência não substitui a beleza pela feiura, mas afasta-se de um padrão estético único, abrindo espaço à individualidade, ao acaso e ao humor.

“Toda a gente persegue a beleza. Quero usar estas coisas feias para contrariar ideias extremas de beleza”, disse uma jovem visitante vinda de fora da cidade, acrescentando que os produtos “feios-fofos” também podem funcionar como forma de alívio de stress e de expressão pessoal.

A Taobao cultiva há anos este gosto por artigos “feios”.

O Prémio Feios anual da plataforma nasceu em 2020, como concurso online, e conquistou desde então um público fiel, respondendo a um estado de espírito mais alargado entre consumidores jovens em busca de alívio face às pressões da vida moderna.

“As pessoas vivem hoje sob bastante pressão. Estas coisas abstratas e excêntricas permitem-lhes sentir que podem vir aqui e dar uma boa gargalhada”, disse um seguidor de longa data da iniciativa.

Segundo Hu Yu, responsável do Prémio Feios, a mudança de atitude ao longo dos anos tem sido notável: no início, ser rotulado de “feio” não era a publicidade que as marcas procuravam, e muitas recusavam a distinção.

“O responsável das operações na China de uma empresa disse-me: ‘Não me deem o prémio. Não o quero'”, recordou Hu. “Mas este ano, já se veem claramente grandes marcas de peluches e brinquedos de autor a participar de forma voluntária na exposição, sob o rótulo de produtos feios.”

Parte do apelo destes objetos poderá estar ligado a uma reação mais ampla contra a perfeição, segundo Amber Zhang, gestora de produtos de dados na consultora de mercado BigOne Lab, sediada em Pequim. Muitos jovens chineses cresceram sob fortes expectativas de desempenho na escola, no trabalho e na vida pessoal, criando aquilo que a especialista descreve como um clima geral de “antiperfecionismo”. “As pessoas começam, em geral, a aceitar que as coisas imperfeitas também estão bem”, disse Zhang. “São precisamente as características imperfeitas que dão personalidade.”

A inteligência artificial poderá estar a reforçar essa mudança.

“As pessoas percebem que, se quiserem algo perfeito, não há forma de o conseguirem mais depressa e mais barato do que com IA”, afirmou Zhang. “Uma versão perfeita parece hoje fabricada.”

Nesse contexto, as arestas e as excentricidades que antes pareciam falhas podem tornar-se parte do apelo de um produto, precisamente por parecerem menos estandardizadas e mais distintivas.

A internet chinesa forneceu recentemente um paralelo inesperado: o filme de animação de baixo orçamento “Niu Lai” tornou-se viral em agosto pelas razões erradas, com a sua animação rudimentar e claramente artesanal a ser ridicularizada numa era em que a inteligência artificial produz imagens sofisticadas com um simples clique.

Mas o troço acabou por transformar o filme num meme e, depois, num sucesso de bilheteira improvável: depois de arrecadar apenas 7.700 yuan (1.100 dólares) nos primeiros dez dias, a produção chegou a faturar mais de 25 milhões de yuan (3,6 milhões de dólares) em poucos dias depois, à medida que excertos e piadas sobre a sua animação tosca se espalhavam online.

No gigantesco mercado chinês de comércio eletrónico, as empresas descobriram que destacar-se pode traduzir-se em cliques, partilhas e, no final, vendas. Para pequenos artesãos, ser coroado “feio” pode compensar generosamente.

O ceramista Chen Ergou, da cidade de Jingdezhen, capital chinesa da porcelana, foi distinguido na quarta edição do Prémio Feios da Taobao por criações como colheres em forma de sapo, disparando a procura. “Ele queixou-se-nos de que não conseguia acompanhar a procura. Não conseguia acender os fornos depressa o suficiente para os produzir”, contou Hu à CNA.

Outro vencedor desse ano, conhecido como Mestre Lu, criou ornamentos deliberadamente pouco convencionais baseados nos 12 animais do zodíaco chinês; o tráfego à sua loja na Taobao subiu 306% num único mês após o prémio.

O fenómeno já é mensurável além de memes e partilhas nas redes sociais: segundo a Taobao, os produtos apresentados na iniciativa Feios geraram 230 milhões de yuan (33 milhões de dólares) em vendas desde o início dos prémios, alcançando dezenas de milhões de consumidores jovens.

Uma vez que algo se torna um sucesso comercial, as marcas tendem a tentar reproduzir a fórmula. Mas quanto mais as empresas se esforçam por fabricar excentricidade, mais arriscam perder a espontaneidade que tornou o fenómeno apelativo, alertam especialistas.

Segundo os especialistas, os objetos não têm necessariamente sucesso por serem feios, mas por evocarem um leque de emoções que pode incluir espanto, diversão, ternura, perplexidade e até conforto.

Numa altura de vidas digitais cada vez mais polidas e de ascensão da chamada economia emocional chinesa, estes artigos podem transmitir uma estranha sensação de segurança – suficiente para levar os consumidores a abrir a carteira.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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