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Nações Unidas, 24 de setembro de 2026 (RAFA) – Os líderes das principais empresas de inteligência artificial apelaram às Nações Unidas para regularem de alguma forma a tecnologia que eles próprios têm vindo a desenvolver, alertando que a sua expansão acelerada pode escapar ao controlo humano.
“Se for mal gerida, acredito mesmo que a IA pode ser um risco para a humanidade como um todo”, afirmou Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic.
Da parte do concorrente Sam Altman, diretor executivo da OpenAI, veio uma avaliação semelhante: “Podemos perder o controlo do futuro para a IA.”
Ambos defenderam, perante o Conselho de Segurança da ONU, onde testemunharam, que os países do mundo têm de estabelecer salvaguardas para impedir que a tecnologia se torne demasiado poderosa para ser controlada.
Defenderam ainda que o poder da inteligência artificial não deve ficar concentrado numa única empresa ou país, enquanto destacaram os benefícios da tecnologia para a humanidade – Altman falou em “dar às pessoas mais poder sobre as suas próprias vidas”.
“Estes líderes tecnológicos estão a dizer-nos, em termos claros, que não pode ficar nas suas mãos evitar que o desastre se abata sobre o mundo”, afirmou o secretário dos Negócios Estrangeiros britânico, Ed Miliband, no Conselho de Segurança. “Não os podemos ignorar, porque têm razão.”
Miliband afirmou que, quando o Reino Unido assumir a liderança do G20 no próximo ano, vai colocar o controlo da inteligência artificial no centro das discussões, procurando um conjunto único de normas globais “para garantir que o desenvolvimento da IA é seguro”.
Já os Estados Unidos defenderam o oposto.
As preocupações sobre o controlo da IA “não são motivo para travar o seu desenvolvimento ou para o condicionar com uma nova estrutura de governação global”, afirmou o conselheiro científico da Casa Branca, Michael Kratsios.
“Queremos que os nossos aliados e parceiros partilhem os benefícios desta tecnologia”, afirmou.
Os Estados Unidos e a China disputam a liderança da inteligência artificial, e o embaixador chinês na ONU, Fu Cong, sublinhou que todos os países devem poder escolher livremente a tecnologia de IA que preferem.
Alertou contra a formação de “pequenos clubes de nós contra eles” no setor tecnológico que obriguem outros países a tomar partido, e criticou o que descreveu como a procura de “hegemonia digital” por parte de grandes potências não identificadas.
Fu Cong defendeu, em alternativa, a promoção de modelos de código aberto – a abordagem seguida pela China nesta tecnologia.
Para a maioria dos líderes mundiais, uma das questões centrais sobre a inteligência artificial é: quem deve controlar as decisões de vida ou morte – o ser humano ou a máquina?
Amodei, Altman e o diretor executivo da Hugging Face, Clément Delangue, que interveio através de uma ligação remota com falhas técnicas, discursaram perante o órgão mais poderoso da ONU numa altura em que líderes mundiais tentam perceber não só se devem controlar a IA, mas por quem, como isso poderá ser feito e quando poderá já ser tarde demais.
No dia anterior, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tinha alertado para os “robôs assassinos”.
Especialistas e líderes europeus afirmaram que não se trata de um exagero, mas de algo que já é uma realidade sombria ou está perigosamente perto de o ser.
Amodei apelou aos líderes mundiais para chegarem a acordo sobre não permitir que a IA construa armas biológicas, encontrarem formas de verificar as capacidades reais dos modelos e “estabelecerem normas comuns” para testes e para situações de perda de controlo ou uso indevido.
O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, cujo país convocou a reunião de quarta-feira, comparou o estado atual da inteligência artificial tanto ao computador descontrolado HAL9000, do filme “2001: Odisseia no Espaço”, como ao início da era atómica.
“Tal como aconteceu então com o átomo, a comunidade internacional tem agora de regular a IA para tirar o máximo partido do seu potencial e evitar o pior”, afirmou Barrot.
A preocupação de Barrot não foi a única expressa durante esta semana de reuniões de alto nível na ONU.
“Não podemos permitir que o custo da hesitação de hoje se torne na catástrofe de amanhã”, afirmou o embaixador da Libéria na ONU, Lewis G. Brown II.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, discursando na Assembleia-Geral, afirmou que é preciso alcançar rapidamente algum tipo de controlo humano sobre as máquinas.
Caso contrário, disse, para o seu país – em guerra há quatro anos e meio -, pode já ser tarde demais. “Já existe uma possibilidade real de que seja a IA, e não apenas as pessoas, a decidir o que acontece no campo de batalha. E precisamos de paz antes de chegarmos a esse ponto”, afirmou Zelensky.
No mês passado, um drone russo, aparentemente a usar inteligência artificial, “tomou de forma autónoma uma decisão de seleção de alvo que matou três ucranianos. Os robôs assassinos são tecnicamente fáceis de construir, e são reais. Não devemos ter quaisquer ilusões quanto a isso”, afirmou Kentaro Toyama, professor de tecnologias de informação na Universidade do Michigan, em declarações por email.
A cientista de dados Rumman Chowdhury, cofundadora da organização sem fins lucrativos Humane Intelligence, dedicada à responsabilização tecnológica, afirmou que a expressão “robôs assassinos” “evoca um vilão de ficção científica, quando a pergunta que quero que o público faça é muito mais concreta: quem autorizou uma máquina a selecionar e atacar um alvo, sob que condições, e quem responde pelo resultado?”
A reunião na ONU decorreu numa altura em que o Presidente chinês, Xi Jinping, seguia para Washington, numa visita de Estado muito aguardada.
O setor da inteligência artificial está atento ao que possa resultar das conversações entre Xi e o Presidente norte-americano, Donald Trump.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, tinha afirmado que os dois países discutiram um possível novo “mecanismo de notificação” para incidentes relacionados com IA que possam afetar a segurança nacional.
Mas na terça-feira, Trump, elogiando a IA como uma “superinteligência”, afirmou que os Estados Unidos vão rejeitar esforços para controlar a tecnologia, enquanto tentam vencer a corrida ao desenvolvimento com a China. Kratsios foi um dos poucos a usar esse termo no Conselho de Segurança.
Entretanto, grupos regionais na Europa, na Ásia e noutras regiões tentam também coordenar políticas próprias sobre inteligência artificial, e várias nações – e até subentidades, como estados norte-americanos – estão a elaborar as suas próprias regras.
FIM
Escrito por RafaFM
Líderes tecnológicos pedem à ONU que controle a inteligência artificial: "risco para a humanidade"
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