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Katmandu, 23 de setembro de 2026 (RAFA) – Desastres relacionados com as alterações climáticas intensificam-se, mas cortes nos programas internacionais de adaptação climática e prevenção de catástrofes estão a deixar países vulneráveis em situações ainda mais precárias.
Uma situação que, no terreno, deixam nações a enfrentar milhares de milhões de dólares em danos evitáveis, com fundos de recuperação cada vez mais escassos.
Com as situações a afetaram milhões de pessoas em todo o mundo.
Sentada no chão de um abrigo improvisado para sobreviventes das recentes inundações mortais no Nepal, Tenzin Dolma Ghale disse que não lhe restou nada além da roupa que trazia vestida.
A sua aldeia e vários familiares foram arrastados pela força da água e dos destroços, numa catástrofe que matou mais de 1.450 pessoas e deixou mais de 6.000 desaparecidas.
“Está tudo acabado”, desabafou.
Ghale é uma das milhões de pessoas a viver com as consequências mortais dos desastres climáticos.
“A realidade é que precisamos de biliões de dólares todos os anos, mas os países desenvolvidos não têm cumprido a sua obrigação”, afirmou Harjeet Singh, diretor-fundador da Satat Sampada Climate Foundation, sediada em Nova Deli.
Os cortes abruptos da Administração Trump à ajuda externa norte-americana em 2025 eliminaram ou reduziram drasticamente programas que serviam milhões de pessoas em todo o mundo, agravados por reduções de outros grandes países doadores.
Entre os programas encerrados esteve o SERVIR-Hindu Kush Himalaya, uma iniciativa conjunta da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), da NASA e do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado da Montanha (ICIMOD), sediado em Katmandu.
O programa, que abrangia o Afeganistão, o Bangladesh, Myanmar, o Nepal e o Paquistão, usava satélites e análise geoespacial para redução do risco de desastres e gestão de recursos hídricos, apoiando ainda a comunicação de riscos com a Cruz Vermelha do Nepal e mais de 170 conjuntos de dados públicos sobre glaciares e vulnerabilidade.
Antes de perder o financiamento, o programa respondia a riscos crescentes numa região onde as alterações climáticas têm provocado degelo acelerado, monções irregulares e inundações, deslizamentos de terra e rutura de lagos glaciares cada vez mais frequentes.
Fenómenos que ameaçam a segurança alimentar, hídrica e energética de quase 2.000 milhões de pessoas que vivem na região ou a jusante dela, segundo o ICIMOD.
Os glaciares dos Himalaias estão a perder massa 65% mais depressa do que há uma década, segundo um novo relatório da consultora global Systemiq, elaborado em parceria com o ICIMOD. Ainda assim, apenas cerca de 0,1% dos cerca de 40.000 glaciares da região são atualmente monitorizados de forma detalhada e sustentada, indica o documento.
Com o fim do financiamento do SERVIR-HKH, terminaram também programas de previsão de deslizamentos, monitorização diária de cheias, formação e cooperação regional entre países.
No norte do Paquistão, o degelo dos glaciares criou 3.044 lagos glaciares, mais de 30 dos quais identificados como propensos a provocar inundações em zonas onde vivem mais de 7 milhões de pessoas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
O Afeganistão enfrenta também um risco acrescido, de acordo com investigação da Universidade de Lausana, na Suíça, enquanto na Índia – que não fazia parte do programa, mas alberga mais de metade dos Himalaias – mais de 130 lagos de alta altitude estão em risco de inundação.
O Sul da Ásia já enfrenta desastres climáticos mortais.
As cheias de 2022 no Paquistão mataram mais de 1.700 pessoas e causaram danos estimados em 40 mil milhões de dólares. No Nepal, as inundações de 2025 mataram nove pessoas. Nos Himalaias indianos, tempestades súbitas, deslizamentos de terra, cheias repentinas e chuvas extremas provocaram, nos últimos 15 anos, mais de 12.000 mortos e danos que ultrapassam os milhares de milhões de dólares.
A região sofreu perdas económicas de pelo menos 7 mil milhões de dólares em 2025 devido a fenómenos climáticos extremos, segundo a base de dados de emergências mantida pela Universidade de Lovaina, na Bélgica – base de dados que está também em risco de encerrar devido aos cortes da USAID.
Em resposta à Associated Press, o Departamento de Estado dos EUA afirmou que Washington continua a apoiar a capacidade do Nepal de alerta de cheias através de programas com a Organização Meteorológica Mundial e a agência norte-americana NOAA, notando que o SERVIR-HKH terminou em janeiro de 2025 mas que as suas ferramentas continuam ativas através do ICIMOD.
Os cortes a programas como o SERVIR-HKH terão efeitos em cadeia durante anos, alertou Neha Rai, especialista em financiamento climático do ICIMOD, que comparou a situação a interromper abruptamente o financiamento da investigação sobre o cancro. “O risco climático é também um desafio geracional. É preciso observação de longo prazo, conhecimento especializado, instituições que não podem simplesmente ser ligadas e desligadas consoante prioridades de curto prazo”, disse.
Os cortes inserem-se numa tendência mais alargada: segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a ajuda ao desenvolvimento dos países do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento, que inclui os EUA, caiu 23% em 2025 – a maior contração anual alguma vez registada. Doadores tradicionais como o Reino Unido, a Alemanha, a França, o Japão e o Canadá também anunciaram grandes reduções, redirecionando fundos para a defesa e outras prioridades internas.
Os países do Sul Global gastam cerca de 225 vezes mais em pagamento de dívida do que recebem em financiamento climático sob forma de subvenções, segundo um relatório recente da organização ActionAid International. “Existe, de facto, uma relação tóxica entre a crise climática e a crise da dívida”, afirmou Teresa Andersen, da ActionAid, explicando que os países contraem empréstimos para recuperar de impactos climáticos, mas depois cortam investimento em energias limpas e prevenção para pagar essas dívidas.
FIM
Escrito por RafaFM
Desastres climáticos aumentam enquanto cortes atingem programas de preparação
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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