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Nações Unidas, 23 de setembro de 2026 (RAFA) – O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou aos líderes mundiais para escolherem entre a fragmentação e a cooperação face às ameaças existenciais da crise climática, da inteligência artificial descontrolada e das desigualdades crescentes.
Num discurso de despedida sem rodeios perante a Assembleia Geral, Guterres disse que o poder está no centro destas crises.
E apontou diretamente a transição “irreversível” para um mundo multipolar, a “extraordinária transferência de poder” dos governos para um punhado de empresas e indivíduos privados, e a crescente delegação de poder dos humanos para as máquinas, através da inteligência artificial.
O secretário-geral pediu aos líderes que evitem “a grande fratura – a divisão do mundo em dois blocos rivais, com sistemas económicos, tecnológicos e de segurança separados”.
Dirigindo-se às superpotências, alertou que “o seu poder não é assim tão superior”, que “o poder militar por si só não garante a paz” e que “nenhum poder consegue resolver sozinho os desafios de hoje”.
Segundo Guterres, o futuro será moldado pela forma como o mundo enfrentar “quatro grandes provas de poder”: o poder sobre a guerra e a paz, o poder que alimenta o caos climático, o poder libertado pela inteligência artificial e o “poder que concentra riqueza e alimenta a desigualdade”.
Sobre paz e segurança, “a primeira grande prova de poder do século XXI”, Guterres apelou aos líderes para aproveitarem a semana de reuniões para exigir o fim dos combates no Médio Oriente, na Ucrânia, no Sudão, em Myanmar e noutras regiões, e um regresso ao diálogo.
Quanto à crise climática, classificou-a como “o mais profundo desequilíbrio de poder entre gerações”, com uma geração a “consumir o futuro da seguinte”.
E alertou que o mundo está prestes a ultrapassar o limiar de segurança de 1,5 grau Celsius definido há 11 anos, mas sublinhou que “os perigos são reais, mas também o é a esperança”, citando os avanços da última década nas energias limpas.
Sobre inteligência artificial, Guterres afirmou que “o perigo não é a tecnologia. O perigo é a tecnologia sem responsabilização”, e pediu que os rivais nesta área se unam, à semelhança do que aconteceu entre as potências da Guerra Fria após a Segunda Guerra Mundial, “para gerir riscos existenciais partilhados”.
“As decisões de vida ou morte nunca devem ser entregues a máquinas. Os robôs assassinos não podem ter lugar no nosso futuro”, declarou.
Quanto à desigualdade, disse que “nunca a humanidade possuiu tanta riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica”, mas que, para milhares de milhões de pessoas, o progresso continua “fora de alcance”, lamentando que a maioria dos objetivos da ONU para erradicar a pobreza não será cumprida até 2030.
O segundo mandato de cinco anos de Guterres termina a 31 de dezembro, e a sucessão continua incerta: após três sondagens informais no Conselho de Segurança entre os oito candidatos, nenhum sucessor claro emergiu ainda.
Guterres defendeu que a Carta das Nações Unidas, assente na “primazia do direito internacional” e na defesa da dignidade humana e da justiça, continua a ser a base para o exercício legítimo do poder no século XXI, mas insistiu na necessidade urgente de reformar a organização, com 81 anos, para refletir um mundo radicalmente diferente do que existia no pós-guerra.
Com a voz embargada pela emoção, encerrou o discurso prometendo “nunca, nunca desistir” dos valores da ONU – o Estado de direito, a soberania das nações e os direitos humanos, entre outros. “Onde quer que esteja, o que quer que esteja a fazer, vou continuar a defender a convicção de que a paz é possível”, disse, antes de deixar o pódio sob uma prolongada ovação de pé, com a mão sobre o coração.
Jornalista: António Sampaio
Escrito por RafaFM
Guterres alerta que poder polarizou o mundo e pede cooperação aos líderes
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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