Ouvir RAFA Ritmo, Voz e Coração de Timor
Díli, 18 de setembro de 2026 (RAFA) – A Wantok Musik Foundation lançou hoje três álbuns e um single de artistas timorenses, num momento que a organização descreve como histórico para a música de Timor-Leste, com concertos previstos em Díli, Melbourne e Sydney.
Os três álbuns que integram o projecto “Hamoris Lian Timor” são “IzuPi”, “Lolobremu” e “Feto Nia Lian, Feto Nia Istoria” (“Her Voice, Her Story”), lançados a par do novo single de Jovie, “Pirilampu Nia Lalatak”.
Todos os trabalhos ficaram disponíveis em todas as plataformas de streaming e na Wantok Musik Bandcamp a partir desta quinta-feira.
“Hoje é um momento marcante para a música de Timor-Leste e para a Wantok Musik Foundation, com o lançamento simultâneo de três álbuns e um single”, refere um dos comunicados da organização, acrescentando que as canções “amplificam as vozes das mulheres e dos homens de Timor-Leste”, partilhando “questões próximas dos seus corações e mentes e temas de importância histórica”.
O álbum “Feto Nia Lian, Feto Nia Istoria” reúne 19 faixas de 16 mulheres timorenses, abrangendo desde temas de dança a cânticos ancestrais, passando por baladas íntimas e canções de resistência e memória.
A produtora e cantora australiana de First Nations Candice Lorrae, uma das produtoras do álbum, descreveu a experiência como “incrivelmente emotiva”.
“Como mulher First Nations da Austrália, senti uma ligação profunda a estas mulheres e às suas histórias – à injustiça que o seu povo sofreu, mas também à força das matriarcas que as precederam”, afirmou, citada no comunicado.
“Estas canções são poderosas: há protesto e determinação em serem vistas e ouvidas, mas também há suavidade, cura e esperança.”
Também a produtora Beatrice Lewis (Haiku Hands, Kardajala Kirridarra) sublinhou a intensidade do processo criativo.
“Há algo muito forte nas histórias que cada mulher tinha para contar através das suas canções neste álbum. Cada canção tinha algo importante para comunicar”, disse, acrescentando que o trabalho envolveu “estúdios cheios de outras mulheres a apoiarem-se mutuamente”.
As canções abordam histórias de mulheres que sobreviveram à guerra, a liderança feminina na vida cultural de Timor e a coragem e os sacrifícios das mulheres durante os 25 anos de ocupação, com contributos dos mais velhos de Pirilampu e da ACbit.
A artista Michelle Tassy, coautora do tema “Naroman” com Mevia Tong, explicou o significado da canção.
“‘Naroman’ significa brilhante. Esta peça nasce das histórias das Pirilampu (as mulheres sobreviventes). Como nova geração, carregamos as suas memórias nas nossas vozes, transformando a sua dor, força e resiliência em música”, disse.
Já Cecilia Barreto, autora de “Inalou”, dedicou o tema às mulheres timorenses que “avançaram sem medo pela causa da independência de Timor-Leste”.
“Para mim, o projecto Feto Nia Lian serve de ponte entre o passado e o futuro; através dele, pude conhecer algumas das mulheres corajosas do passado e ouvir em primeira mão as histórias verdadeiramente trágicas e sombrias por detrás da nossa independência. Estou profundamente grata por este projeto”, disse a artista, referindo-se ao projeto no seu todo.
A equipa do álbum incluiu ainda o diretor artístico David Bridie e a produtora local Lena Caminha, com apoio artístico dos músicos timorenses Jovie Guterres, Malena de Jesus e Etson Caminha.
A realizadora timorense Mana Bety Reis filmou vários videoclipes e um documentário sobre o projecto, cuja estreia formal está marcada para Díli em outubro e para Melbourne e Sydney em novembro.
“IzuPi” é descrito no comunicado como “mais do que um álbum” – “a voz profunda e a história sagrada do povo timorense durante a ocupação”.
Segundo o texto, as canções “carregam o choro das mães que perderam os filhos, a esperança das crianças desaparecidas que regressam para ver a sua terra amada, e o espírito resistente dos sobreviventes que suportaram a tempestade para que as gerações futuras pudessem conhecer o verdadeiro amor e paz”.
Já “Lolobremu”, do artista Damião Soares, natural de Liquiçá, combina instrumentos e melodias tradicionais timorenses com um estilo contemporâneo de piano.
Segundo o comunicado, Soares foi, em criança, protegido pelos pais durante o massacre na igreja de Liquiçá, em que 100 civis timorenses foram mortos por membros de milícias pró-indonésias e soldados indonésios a 5 e 6 de abril de 1999.
O álbum reúne nove temas atravessados por essa história pessoal e cultural.
Para assinalar o lançamento, a Wantok Musik Foundation vai apresentar a série de concertos “Ita Nia Lian, Ita Nia Istoria” (“Our Voices, Our Stories”), com atuações marcadas para a Fundação Oriente, em Díli, a 30 de outubro; o Melbourne Recital Centre, a 20 de novembro; e o Riverside Live at PHIVE, em Sydney, a 21 de novembro.
Os concertos vão contar com a participação de Candice Lorrae, Beatrice Lewis, dos Dili Allstars com David Bridie (Not Drowning, Waving), da violoncelista e compositora Helen Mountfort (My Friend the Chocolate Cake), e do músico timorense Ego Lemos, vencedor de melhor canção original pelo filme “Balibo” e autor do hino oficioso “Timor Loro Sa’e”.
“Escrever e gravar canções dá-nos voz. E é muito importante, neste mundo, ter voz. Nenhuma mais importante do que a das mulheres em Timor-Leste”, afirmou David Bridie, citado no comunicado.
A Wantok Musik Foundation é uma organização sem fins lucrativos sediada na Austrália que, há mais de duas décadas, trabalha com artistas, músicos e comunidades do Pacífico e de Timor-Leste na gravação, edição e divulgação de histórias, música e sons tradicionais, com apoio do Governo australiano e do Governo de Victoria.
Jornalista: António Sampaio
Escrito por RafaFM
incluindo compilação dedicada às mulheres timorenses Wantok Musik lança três álbuns e single que celebram vozes de Timor-Leste
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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