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Super El Niño ameaça agravar custo de vida e saúde pública no sueste asiático

todaySetembro 17, 2026 30 5

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Bali, 17 de setembro de 2026 (RAFA) – Um super El Niño com 98% de probabilidade de ocorrência entre outubro e dezembro ameaça elevar o custo de vida, afetar a produção agrícola e agravar riscos de saúde em todo o sueste asiático, segundo dados da agência norte-americana NOAA citados pela CNA.

O fenómeno climático, que ocorre naturalmente a cada dois a sete anos e provoca condições mais secas na região, já se faz sentir em várias frentes.

Na Indonésia, o maior produtor mundial de algas marinhas tropicais, agricultores como Wayan Suwarbawa, de 54 anos, já viram as suas colheitas destruídas por uma vaga de calor intensa em julho.

“Nunca tínhamos vivido um fenómeno de calor como o que tivemos, com rajadas fortes vindas de leste. Como agricultores, tememos o impacto dos ventos de leste”, afirmou Suwarbawa, em Nusa Lembongan, Bali.

Segundo o Climate Prediction Center da NOAA, há uma probabilidade de 75% – acima dos 69% previstos anteriormente – de este ser o El Niño mais severo desde 1950.

A região já registou três super El Niño em memória recente, em 1982-83, 1997-98 e 2015-16, sendo que o último causou perdas económicas globais estimadas em 3,9 mil milhões de dólares e afetou pelo menos 60 milhões de pessoas.

Na Tailândia, um dos maiores exportadores mundiais de arroz e açúcar, o agricultor Chuan Juntar, que cultiva arroz há mais de 30 anos em Suphan Buri, depende da água armazenada no seu próprio reservatório.

“Não sei o que faria se não pudesse cultivar. Ficaria em casa, cultivaria alguns vegetais, seria isso”, disse.

O presidente da comissão parlamentar tailandesa para Terra, Recursos Naturais e Ambiente, Poonsak Chanchampee, alertou que o impacto pode prolongar-se para além da presente época das chuvas.

“Não vai afetar-nos só este ano. Os agricultores podem plantar arroz, cana-de-açúcar ou outras culturas como habitualmente, mas depois, de repente, não há água para as sustentar”, afirmou.

Na Indonésia, cerca de 30.400 hectares de arrozais tinham sido atingidos pela seca até 10 de julho, segundo o ministério da Agricultura do país, que prevê ainda uma quebra de quase 2 milhões de toneladas métricas na produção de óleo de palma no próximo ano.

O sector energético também está sob pressão.

No Vietname, onde a energia hídrica representa cerca de 30% da produção elétrica, os recursos hídricos dos sistemas fluviais chegaram a diminuir 60% em algumas regiões durante o último super El Niño, segundo Pham Thi Thanh Nga, directora do Instituto de Meteorologia, Hidrologia, Ambiente e Ciências Marinhas do país.

O diretor do Centro de Governação e Sustentabilidade da Escola de Negócios da Universidade Nacional de Singapura (NUS), Lawrence Loh, alertou que uma quebra na produção hidroelétrica do Laos, exportador de eletricidade para a Tailândia, o Vietname e Singapura, pode reduzir o fornecimento regional e pressionar os preços de bens manufaturados.

O turismo, que representou cerca de 14% da economia tailandesa no ano passado, com uma estimativa de 30 milhões de chegadas internacionais a Banguecoque, está igualmente a sentir os efeitos do calor extremo.

A responsável de desenvolvimento de negócio da agência New Way Travel, Nutthanun Kanjanapattana, disse que a empresa já oferece aos turistas alternativas de atividades em espaços fechados durante as horas de maior calor.

Períodos de seca e calor aumentam também o risco de incêndios florestais e nevoeiro tóxico, como aconteceu durante os episódios de El Niño de 1997-98 e 2015-16.

A diretora de um infantário em Kuala Lumpur, Cherry Lim, afirmou que a qualidade do ar já obriga ao cancelamento de atividades ao ar livre para as crianças.

“Às vezes oiço as crianças. Tossem mais, têm o nariz a escorrer e também têm dificuldade em dormir”, disse.

O calor extremo representa ainda um risco acrescido para grávidas. Segundo o obstetra, ginecologista e especialista em fertilidade Wai Kok Yau, do Thomson Hospital Kota Damansara, as mulheres grávidas têm maior dificuldade em regular a temperatura corporal devido à taxa metabólica mais elevada.

Na Tailândia, Thamonwan Rakphuak, de 24 anos e grávida de seis meses do primeiro filho, sem ar condicionado no quarto, disse: “à medida que o tempo fica mais quente, a minha vida deixou de ser a mesma”.

O professor adjunto Huang Zhongwei, da Yong Loo Lin School of Medicine da NUS, associou ainda períodos de calor mais intenso a uma menor contagem e qualidade do esperma, bem como a possíveis efeitos indiretos sobre os ciclos menstruais e a ovulação, num contexto em que as taxas de natalidade já registam mínimos históricos na Tailândia.

Ardhasena Sopaheluwakan, vice-responsável de climatologia da Agência Meteorológica, Climatológica e Geofísica da Indonésia, sublinhou à CNA que as temperaturas do mar em várias partes do mundo, incluindo nos mares indonésios, estão mais elevadas do que em anteriores episódios de El Niño.

A professora de climatologia da Agência Nacional de Investigação e Inovação da Indonésia, Erma Yulihastin, recordou que os cientistas já alertavam desde o início do ano para um “El Niño invulgar” e pediam “acção antecipada”.

“Também temos de nos preparar para os próximos dois anos. Precisamos de prevenir quaisquer efeitos em cadeia ou de dominó porque… as previsões atuais sugerem que [o El Niño] vai persistir”, afirmou.

A procura de água e de eletricidade no sueste asiático aumentou desde o último super El Niño, com a procura elétrica a crescer, em média, 6% ao ano, impulsionada pelo crescimento populacional, a urbanização e a industrialização, segundo a Agência Internacional de Energia.

Os centros de dados, sector em rápida expansão na região, acrescentam agora uma pressão adicional sobre os recursos hídricos e energéticos.

Face a este cenário, os governos da região têm reforçado a gestão de reservatórios, melhorado sistemas de irrigação, distribuído bombas de água, incentivado culturas resistentes à seca e reforçado a prevenção de incêndios florestais.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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