Destaque

Quem apaga a memória e quem decide o que é o conhecimento em Timor-Leste?

todaySetembro 16, 2026 14

Fundo
share close

Díli, 16 de setembro de 2026 (RAFA) — A memória do feminismo em Timor-Leste pode estar a perder-se entre as novas gerações, enquanto a produção de conhecimento continua muitas vezes associada a quem possui formação académica e maior reconhecimento social.

Estas questões estiveram no centro de uma discussão que procurou repensar quem produz conhecimento, quem tem autoridade para ser ouvido e como as experiências da sociedade podem transformar-se em consciência e ação coletiva.

A reflexão surgiu durante o debate “Produção de Conhecimento e Movimento Social”, integrado no Festival Literário 2026, com intervenções de Emília Oliveira, feminista ligada à FERA, e Oscar Sanches.

“Quem está a apagar a nossa memória feminista?”

Emília Oliveira colocou a memória no centro do seu discurso ao questionar o conhecimento que a nova geração tem sobre o feminismo e sobre o legado deixado pela Organização Popular de Mulheres Timorenses (OPMT).

“Se mak halakon ita nia memoria feminizmu?”  “Quem está a apagar a nossa memória feminista?”, perguntou a oradora.

A questão levou à reflexão sobre uma parte da história das mulheres em Timor-Leste que, segundo a apresentação, nem sempre é profundamente conhecida pelas gerações mais jovens.

A OPMT (Organização das Mulheres de Timor-Leste) foi analisada a partir da sua história e visão política, incluindo o pensamento de Rosa Muki sobre a emancipação feminina.

A discussão procurou recuperar o que a organização fez, os seus objetivos e como introduziu novas ideias sobre o género.

Para além da memória histórica, a apresentação analisou a transformação da política feminista desde a década de 1980 até ao período pós-independência, relacionando este percurso com os debates atuais sobre o feminismo no país.

A participação das mulheres na luta pela transformação da sociedade foi também apresentada a partir da ideia de que estas se depararam com diferentes formas de opressão. Por um lado, a condição de um povo colonizado; por outro, a posição da mulher no seio das relações sociais patriarcais.

A experiência da OPMT foi também apresentada como exemplo de como produzir conhecimento pode significar criar condições para que as pessoas compreendam a sua realidade e se organizem.

Através do manifesto de Rosa Muki, a organização desenvolveu atividades de educação política, leitura e escrita, procurando ajudar as mulheres a compreender o que se passava à sua volta e a organizarem-se.

A OPMT desenvolveu também iniciativas junto das comunidades, incluindo o apoio à produção de alimentos.

Porquê o “feminismo” e não apenas a “igualdade de género”?

A discussão levantou também uma questão sobre a própria linguagem utilizada pelas organizações de mulheres.

De acordo com a reflexão apresentada, muitas organizações da sociedade civil preferem falar de “igualdade de género” em vez de utilizarem diretamente a palavra “feminismo”, por ser vista como uma expressão mais aceitável e menos controversa.

Para as organizações feministas de base, porém, manter o termo “feminismo” permite questionar os sistemas de opressão e as causas das desigualdades, e não apenas discutir a igualdade entre homens e mulheres.

Foi nesta altura que surgiu uma das questões mais provocatórias do debate: se uma mulher tem a liberdade de escolher o seu próprio modo de vida, o que acontece quando a sua escolha não corresponde aos ideais feministas?

A questão levantava ainda outro ponto: quem deve definir o significado de liberdade para uma mulher: a própria mulher ou o movimento feminista?

Emília Oliveira respondeu que o feminismo deve ser entendido como uma luta coletiva, e não apenas uma questão individual.

Segundo a oradora, a luta feminista não se limita à libertação das mulheres enquanto mulheres, mas procura combater os sistemas de opressão que afetam as pessoas de forma mais ampla.

Quem pode produzir conhecimento?

A discussão passou depois da memória feminista para uma questão mais abrangente: quem é reconhecido como produtor de conhecimento?

Oscar Sanches iniciou a sua intervenção com uma pergunta: “Oinsa sociedade sai produto ba conhecimento, harii consciência no halo transformasaun social?” – como pode a sociedade produzir conhecimento, construir consciência e promover a transformação social?

O orador questionou a ideia de que apenas pessoas com formação académica: professores, licenciados, mestres ou doutorados :podem produzir conhecimento.

“Ema hotu-hotu bele”, argumentou, sustentando que a produção de conhecimento não se limita à academia.

Para Sanches, o conhecimento pode começar com uma experiência ou um problema concreto na sociedade: a pobreza, a fome, a saúde, a educação ou outras dificuldades enfrentadas pelas pessoas.

Para o orador, no entanto, a sociedade não é apenas consumidora do conhecimento produzido pelos académicos ou pelas instituições.

As próprias comunidades podem produzir conhecimento através das suas experiências, diálogo, documentação, investigação cidadã e ação social.

Este processo pode seguir um caminho: identificar um problema, compreendê-lo, produzir conhecimento, organizar-se e procurar transformá-lo.

É aqui que entram os movimentos sociais.

Os movimentos estudantis, ambientalistas, camponeses, operários e feministas foram apresentados como exemplos de formas de ação coletiva que procuram manter, rejeitar ou transformar determinadas condições sociais.

Ao mesmo tempo, estes movimentos podem também produzir novos conhecimentos a partir das suas experiências e ações.

A discussão concluiu, assim, com uma ligação entre duas dimensões: a preservação do conhecimento produzido pelas experiências sociais e a criação de condições para que esse conhecimento possa gerar consciencialização e ação coletiva.

Mais do que simplesmente questionar quem tem o diploma para produzir conhecimento, o debate levantou uma outra questão: o que acontece quando as experiências de quem vive os problemas da sociedade são também reconhecidas como fonte de conhecimento?

Jornalista: Miguel Caldas

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!