Destaque

Produtor de Aileu acusa OIT de ignorar crise mundial da baunilha ao propor expansão da cultura em Timor-Leste

todaySetembro 16, 2026 202 35

Fundo
share close

Díli, 16 de setembro de 2026 (RAFA) – Um produtor de baunilha de Aileu considera que a proposta da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a expansão da cultura em Timor-Leste foi desenvolvida sem contactar adequadamente o setor ou ter em conta a realidade do mercado mundial do produto.

A Dili Vanilli, fundada em 2018 e apresentada como o único processador independente com alguma escala a operar no país, afirma que nenhum responsável do estudo a contactou e que o preço que o documento atribui às suas compras está desatualizado “em dois a três anos”.

“Estes relatórios saem de tempos a tempos, e nunca ligam a quem está a fazer o trabalho. Curo baunilha em Aileu desde 2018 e nunca ninguém da OIT falou comigo”, disse Martin Hardie, fundador da empresa, à RAFA.

A OIT divulgou este mês o estudo “Desenvolvimento do roteiro da cadeia de valor da baunilha de Timor-Leste”, que defende a expansão do setor num plano de três fases, partindo da premissa de que a procura global de baunilha natural “se mantém forte” e de que o país cultiva atualmente 594 hectares de um potencial identificado de 2.680.

A Dili Vanilli contrapõe esta leitura com o relatório de mercado da casa comercial canadiana Aust & Hachmann, datado de maio, que descreve o mercado mundial da baunilha como estando “em declínio prolongado”, com “preços insustentavelmente baixos e sobreprodução em larga escala” e cotações em Madagáscar e no Uganda em mínimos históricos, depois de ajustada a inflação.

O documento indica como preços mínimos oficiais de exportação em Madagáscar 50 dólares por quilo para a baunilha preta, 25 para a longa vermelha e 15 para os cortes, referindo que os próprios exportadores têm cada vez mais dificuldade em respeitar esses valores, e antecipa nova colheita de grande dimensão este ano.

“O estudo da OIT diz que a procura global se mantém forte. O relatório dos próprios comerciantes da baunilha diz que o mercado está em crise, sobreabastecido, em mínimos históricos depois de ajustar a inflação. As duas coisas não podem servir de base ao mesmo plano para os agricultores”, afirmou Hardie.

Frederico Mesquita, gestor da Dili Vanilli, sublinhou a mesma discrepância.

“De tempos a tempos aparece um relatório a dizer-nos que o mundo está com fome da nossa baunilha. Nós vendemos baunilha todas as semanas. Sabemos o que o mundo está disposto a pagar, e não é o que estes relatórios sugerem”, afirmou.

Segundo a empresa, a cura exige entre cinco e seis quilos de baunilha verde por cada quilo de baunilha curada, e mais quando se seleciona para qualidade superior.

A Cooperativa Café Timor (CCT), principal compradora no país, paga entre cinco e sete dólares por quilo de baunilha verde, segundo o estudo da OIT.

A Dili Vanilli paga dez dólares desde 2023 ou 2024, um valor que, segundo Hardie, coloca a empresa “acima do mercado mundial antes de pagar uma hora de cura, uma caixa, uma licença ou um voo”, face a um preço mundial de baunilha preta curada igual ou inferior a 50 dólares por quilo.

O preço pago em Timor-Leste já chegou a atingir 57 dólares por quilo em 2019, através da então compradora NCBA, tendo caído para 20 dólares em 2020 – uma quebra que a própria NCBA classificou à data como “próxima dos 60 por cento”.

A Dili Vanilli pagou entre 35 e 45 dólares por quilo em 2018 e 2019, desceu para um preço único de 30 dólares em 2020 e manteve os 20 dólares até 2023, antes do atual valor de dez dólares.

A empresa recorda ter alertado o Ministério da Agricultura para estes riscos numa apresentação feita em 2020 na feira agrícola AgrForFeria, na qual explicava a taxa de conversão, a aritmética do preço à porta da quinta e a sobreprodução esperada após o regresso de Madagáscar à produção depois do ciclone Enawo.

“Limitar-se a noticiar o preço máximo da baunilha, sem mais informação, cria expectativas exageradas sobre o que os agricultores devem receber”, dizia então a apresentação, cujo aviso, segundo a empresa, “ninguém contradisse desde então”, algo que o novo estudo da OIT voltou a repetir, sustenta.

A Dili Vanilli sublinha que a questão não é teórica, uma vez que 542 dos 594 hectares atualmente cultivados em Timor-Leste foram plantados por iniciativa própria dos agricultores.

“Plantaram porque foram incentivados. Quando a baunilha verde se vendia a mais de cinquenta dólares por quilo, o Estado, os ministros, os funcionários públicos, as ONGs e outros andaram pelo país a dizer que havia dinheiro na baunilha. Depois Madagáscar voltou ao mercado e o preço não parou de cair. Essas famílias estão hoje com a colheita na mão, e o conselho que receberam nunca foi pago”, afirmou Hardie.

A empresa concorda com o diagnóstico da OIT sobre a dependência de um único comprador dominante, mas argumenta que a diversificação não se resolve com mais hectares, mas tornando possível vender a outros compradores.

Aponta quatro obstáculos estruturais que considera terem ficado de fora do estudo entre eles a exclusão de Timor-Leste da rede de pagamentos Stripe, que impede empresas timorenses de receber pagamentos com cartão nos seus próprios sítios na internet, obrigando o comércio online a depender de transferências bancárias.

Refere ainda a inexistência de opções de frete adequadas para pequenas remessas, obrigando a escolher entre encher um contentor inteiro ou recorrer a frete aéreo dispendioso e a burocracia da Autoridade Tributária na emissão da Certidão de Dívidas necessária para exportar, com recusas e cartas sem resposta que só foram desbloqueadas, num caso, após intervenção do Presidente da República e do Ministro das Finanças, que são atualmente objeto de queixa formal ao Provedor de Direitos Humanos e Justiça.

Hardie refere ainda o impacto da dolarização da economia, que impede a absorção cambial de quebras no preço mundial, ao contrário do que sucede noutras origens produtoras que podem desvalorizar a sua moeda.

“O problema não está na vinha. Está em que não podemos receber um pagamento online, não conseguimos pôr uma pequena remessa num avião a um preço que faça sentido, e não conseguimos obter uma certidão fiscal sem uma carta de um ministro. Resolvam isso e então podemos falar de hectares”, afirmou Mesquita.

A empresa afirma vender atualmente a maior parte da sua produção a turistas, através de uma quinta em Aileu com alojamento, café e loja, funcionando a baunilha como “chamariz” de um modelo de agroturismo assente sobretudo em guias locais independentes.

“A baunilha é o chamariz, mas o nosso negócio é agroturismo. As pessoas vêm à quinta, ficam, comem e compram a baunilha na loja, e a maioria está aqui porque um guia local as trouxe. Esses guias são a espinha dorsal do setor e ninguém no Governo fala com eles”, disse Mesquita, que criticou a política de turismo do Governo por estar centrada em hotéis de grande dimensão.

“A política está fixa em hotéis de cinco estrelas. O turismo que acontece de facto aqui são quintas, montanhas e trilhos, geridos por famílias sem ajuda de ninguém, e continua sem um único programa ou um cêntimo de subsídio. Imaginem o que faria com um”, afirmou.

A Dili Vanilli reconhece, ainda assim, que o seu modelo não constitui uma estratégia replicável para as cerca de 1.200 famílias produtoras de baunilha em Timor-Leste, por depender de um mercado disposto a pagar pela qualidade, ao qual o mercado de mercadoria “não se interessa”.

O estudo da OIT propõe um roteiro de desenvolvimento em três fases, com um horizonte até 20 anos, que inclui reforço da formação de agricultores, criação de viveiros certificados, cooperativas de produtores, um laboratório nacional de certificação fitossanitária e expansão da capacidade de processamento e promoção comercial através de embaixadas.

Jornalista: António Sampaio

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!