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Polícia detém dezenas de manifestantes junto a tribunal em Istambul em protesto contra repressão de coletivos LGBTQ+

todaySetembro 16, 2026 17 1

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Istambul, 16 de setembro de 2026 (RAFA) – A polícia turca deteve, na terça-feira, dezenas de manifestantes que se concentraram junto a um tribunal em Istambul para exigir a libertação de ativistas LGBTQ+ detidos numa ampla operação policial dias antes.

Os agentes cercaram os manifestantes junto ao tribunal de Caglayan antes de procederem às detenções.

Os protestos ocorrem depois de no domingo, as autoridades turcas lançaram uma operação contra vários coletivos e indivíduos LGBTQ+, detendo dezenas de membros, invadindo sedes de associações e fazendo rusgas a locais de encontro populares na comunidade.

Os sítios eletrónicos das organizações visadas foram também bloqueados.

O ministro da Justiça, Akin Gurlek, afirmou que a operação, denominada “A Minha Família Está Segura”, visou 162 suspeitos, nove associações e 13 negócios, e teve como objetivo “proteger as crianças, a instituição da família e a ordem pública”.

A operação não decorre de legislação recentemente aprovada, mas sim de um decreto presidencial emitido há cerca de uma década por Erdogan, no âmbito da chamada “Década da Família e da População”.

Uma iniciativa supostamente dedicada a travar a quebra acentuada da taxa de natalidade e o envelhecimento demográfico do país.

Segundo Gurlek, a operação de domingo alinha-se com esse decreto, que atribui ao Estado o “dever constitucional” de proteger famílias e crianças, alegando que “nenhuma organização criminosa, rede de abuso ou atividade ilegal dirigida a crianças, jovens ou famílias será tolerada”.

A taxa de crescimento populacional da Turquia caiu de 2,53% em 2015 para apenas 0,23% no ano passado, uma queda que Erdogan tem vindo a atribuir, em declarações públicas, ao que classifica como um “movimento desviante” de “pervertidos”, numa referência direta à comunidade LGBTQ+.

Para travar essa tendência, o Governo tem também lançado medidas de incentivo à natalidade, como empréstimos sem juros para recém-casados, apoios financeiros a famílias com recém-nascidos e apoio à habitação e ao acompanhamento de casais jovens.

Segundo os procuradores de Istambul e Ancara, as operações de fim de semana abrangeram entre 12 e 15 províncias, visando formalmente investigações por suspeitas de prostituição e obscenidade.

Só em Istambul foram alvo de investigação 38 suspeitos, dos quais 26 foram detidos, com as autoridades a apreenderem droga, equipamento informático, álcool de contrabando e uma arma de fogo.

Em Ancara, mais 21 pessoas foram detidas no âmbito de uma investigação à associação LGBTQ+ Kaos GL, permanecendo outras cinco pessoas ainda procuradas.

No total, as autoridades abriram processos judiciais contra 162 suspeitos, nove associações e 13 empresas – entre as quais bares e um balneário frequentados pela comunidade LGBTQ+.

Um dia antes das rusgas, as contas de mais de uma dezena de organizações LGBTQ+ turcas, incluindo clubes estudantis oficiais de universidades como a Boğaziçi e a Bilkent, tinham já sido bloqueadas na rede social X, a pedido das autoridades turcas.

A Associação Turca de Direitos Humanos classificou a operação como “discriminação promovida pelo Estado, política do medo e desmantelamento da sociedade civil”, enquanto o eurodeputado responsável pelo dossiê da Turquia no Parlamento Europeu, Nacho Sánchez Amor, a descreveu como “uma escalada chocante” da repressão.

Na terça-feira, o comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo, Michael O’Flaherty, manifestou preocupação com as rusgas e detenções, afirmando que “meras referências a ‘valores familiares’ ou à ‘proteção das crianças’ não podem servir de justificação legal para restrições aos direitos humanos”.

“Apelo às autoridades turcas para que libertem qualquer pessoa detida por se dedicar a trabalho de direitos humanos ou de sociedade civil”, declarou, em comunicado, acrescentando que continuará a acompanhar a situação.

Junto ao tribunal, os manifestantes empunharam cartazes com frases como “Ser LGBT+ e organizarmo-nos não é crime” e entoaram palavras de ordem em defesa dos direitos da comunidade LGBTQ+, antes de a polícia intervir.

“Estamos a atravessar um período em que há uma tentativa, por parte do poder no Governo, de retratar as pessoas LGBT+ como a causa de todos os problemas desta sociedade”, disse à Associated Press Banu Aslan, de 36 anos, uma das manifestantes.

O partido no poder na Turquia, liderado pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan e com raízes no movimento islâmico turco, tem-se mostrado cada vez mais vocal contra os coletivos LGBTQ+, numa tentativa de consolidar os elementos mais conservadores da sua base eleitoral.

Em 2015, o partido proibiu a Marcha do Orgulho de Istambul, que nos anos anteriores chegava a reunir dezenas de milhares de participantes.

Desde então, as autoridades têm dispersado com violência qualquer tentativa de concentração para assinalar a data.

Este verão, um navio de cruzeiro LGBTQ+ que percorre o Mediterrâneo e que já tinha atracado várias vezes na Turquia no passado viu recusada a autorização para atracar no país.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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