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Baunilha pode ser aposta estratégica de diversificação agrícola e económica segundo novo relatório

todaySetembro 15, 2026 38 12

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Díli, 15 de setembro de 2026 (RAFA) – Timor-Leste tem o potencial para transformar a baunilha num produto estratégico de diversificação agrícola e económica, criando emprego digno e reforçando os meios de subsistência rurais, sobretudo entre jovens e mulheres, segundo a OIT.

O relatório “Desenvolvimento do roteiro da cadeia de valor da baunilha de Timor-Leste”, divulgado esta semana, propõe um roteiro de desenvolvimento em três fases para um setor que é ainda incipiente.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), no ano passado, Timor-Leste exportou apenas 6,3 toneladas de baunilha seca, o que equivale a apenas 0,3% das exportações anuais de Madagáscar, o maior produtor mundial.

“A indústria de baunilha de Timor-Leste tem o potencial de criar trabalho digno e reforçar os meios de subsistência rurais, particularmente para jovens e mulheres. Investir em competências, produção sustentável e melhor acesso ao mercado será fundamental para concretizar este potencial”, afirmou Simrin Singh, diretora da OIT para a Indonésia e Timor-Leste, citada no estudo.

O documento nota que a procura global por baunilha natural mantém-se forte, apesar das flutuações de produção em Madagáscar, responsável por cerca de 80% do fornecimento mundial e onde a cultura representa 25% do PIB nacional.

Em 2024, Madagáscar produziu 3.089,5 toneladas de baunilha em bruto, seguido pela Indonésia (1.526 toneladas), México (510,3), Papua Nova Guiné (494,9) e Uganda (183,1).

O mercado global de baunilha natural está avaliado em cerca de 900 milhões de dólares, com os Estados Unidos (131,7 milhões de dólares em valor importado em 2024), a França (110,6 milhões) e a Alemanha (33 milhões) como principais importadores.

O segmento da baunilha biológica está a crescer a um ritmo anual composto que se prevê de 15,06% até 2035, impulsionado pela procura por produtos sustentáveis e minimamente processados – um nicho que, segundo a OIT, favorece precisamente o perfil da produção timorense, cultivada organicamente e integrada em sistemas agroflorestais.

Introduzida por volta de 1989, a baunilha só começou a ser comercializada formalmente em Timor-Leste a partir de 2020, com o comércio ainda mal documentado a nível nacional.

A área total de cultivo ronda os 595 hectares, quase metade (290 hectares, ou 49%) concentrada no município de Ermera.

Segundo o Censo Agrícola de 2019, existem cerca de 1.200 agricultores de baunilha no país, a maioria pequenos produtores com menos de 0,5 hectares, para quem a baunilha é uma cultura secundária face ao café ou ao cravinho.

A Cooperativa Café Timor (CCT) continua a dominar o mercado, comprando baunilha verde de Grau A a 7 dólares por quilo, Grau B a 6 dólares e Grau C a 5 dólares, tendo recebido dos seus agricultores um total de 34 toneladas em 2025.

Segundo o estudo, a taxa de conversão do processo de cura ronda os 19-20%, ou seja, 100 quilos de baunilha verde resultam em apenas 20 quilos de baunilha seca e curada – num processo que demora cerca de três meses.

Entre os processadores privados, a Dili Vanilli, que opera desde 2018 e paga 20 dólares por quilo independentemente do grau, viu a sua produção cair de cerca de 500 quilos anuais para apenas 100 quilos em 2025.

Já a Cornerstone, sediada em Metinaro e que compra baunilha de agricultores de Ermera e Aileu, processou cerca de 500 quilos de baunilha fresca em 2025, produzindo 200 quilos de baunilha seca para exportação à Austrália, além de pó e açúcar de baunilha.

O estudo identifica lacunas significativas na aplicação de boas práticas agrícolas, nomeadamente na polinização manual, na poda, no enrolamento das vinhas e na gestão de pragas e doenças.

Um exemplo citado é o surto de fusariose, antracnose e podridão negra que, em 2021, destruiu praticamente todas as plantações de baunilha na aldeia de Leimaia Soren Balu, sem que a cultura tenha ainda sido restabelecida na zona afetada.

Para colmatar estas falhas, o projeto “Agroforestry Skills for Employment and Resilience”, financiado pela União Europeia e implementado pela OIT, já formou mais de 760 agricultores de baunilha em todo o país – sobretudo em Ermera, mas também em Aileu, Liquiçá, Viqueque, Manufahi e Manatuto – em boas práticas agrícolas, colheita e processamento pós-colheita, com materiais formativos desenvolvidos em tétum.

A OIT propõe um roteiro de desenvolvimento em três fases.

A primeira, num horizonte de um a dez anos, foca-se em reforçar a formação dos agricultores, criar viveiros certificados de mudas e melhorar infraestruturas de transporte e água, além de criar um sistema nacional de recolha de dados sobre o setor, que é hoje praticamente inexistente.

A segunda fase, a cinco a dez anos, aposta no reforço de cooperativas de produtores, na criação de um laboratório nacional acreditado de certificação fitossanitária e no acesso a financiamento para certificações de sustentabilidade.

A terceira fase, a 15-20 anos, visa expandir a capacidade de processamento interno – incluindo produtos de maior valor como extrato de baunilha – e reforçar a promoção comercial através de embaixadas e parcerias com países como a Austrália, a Indonésia e, a prazo, a China.

Entre os principais entraves identificados pelo estudo estão a desconexão entre os preços pagos aos agricultores e os preços internacionais, a dependência de um único comprador dominante (a CCT), a falta de infraestruturas viárias e hídricas adequadas, e a ausência de uma autoridade reguladora da qualidade alimentar em Timor-Leste.

O relatório sublinha ainda que o emprego ao longo da cadeia de valor da baunilha permanece marcado por desigualdades de género.

Uma análise anterior da OIT, realizada nos municípios de Manufahi e Liquiçá, mostrou que, embora as mulheres contribuam de forma substancial para a produção – nomeadamente na gestão das culturas, no apoio à colheita e no tratamento pós-colheita -, tendem a concentrar-se em atividades de baixo valor, não remuneradas e informais, como a polinização manual.

Já as funções que exigem competências técnicas e oferecem maior valor, como o marketing e as vendas, continuam dominadas por homens.

Os próprios programas de formação em boas práticas agrícolas registam uma clara disparidade: são sobretudo os homens quem participa nas sessões, ainda que o trabalho de campo acabe, na prática, a cargo das mulheres.

O relatório inclui ainda uma avaliação dos riscos ocupacionais ao longo da cadeia de valor, classificando como “quase certa” a exposição de agricultores e processadores a trabalho monótono e repetitivo, e como “moderada” a exposição a riscos biomecânicos – como longos períodos de pé ou agachados – e de segurança, incluindo quedas e uso de ferramentas cortantes.

Os agricultores enfrentam ainda risco “provável” de picadas de insetos e cobras, dada a natureza do trabalho no terreno.

Jornalista: António Sampaio

 

Escrito por RafaFM

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