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Nairobi, 8 de setembro de 2026 (RAFA) – O financiamento através de créditos de carbono está a tornar-se a principal aposta de África para expandir o acesso a formas de cozinhar mais limpas, num continente onde quase mil milhões de pessoas ainda dependem de carvão ou lenha para cozinhar.
Em Nairobi, a empresária Mary Kavutha prepara agora o pequeno-almoço para os dois filhos num fogão de indução, depois de, há dois anos, usar um fogão a carvão que enchia a cozinha de fumo e lhe custava cerca de 1,15 dólares em combustível por dia.
Hoje, diz, consegue cozinhar várias refeições por 80 cêntimos em eletricidade.
“Cozinha muito mais depressa e é muito mais seguro, porque tenho filhos pequenos. Com carvão havia sempre fumo em casa. Agora consigo cozinhar dentro de casa confortavelmente, e gasto muito menos”, afirmou.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a poluição do ar doméstico causada por estes combustíveis contribui para cerca de 850 mil mortes por ano no continente.
Como milhões de outros africanos, Kavutha mudou de fogão não por preocupações climáticas, mas porque os novos equipamentos se tornaram acessíveis, ao serem subsidiados por financiamento de créditos de carbono, que permite às empresas de cozinha limpa angariar capital antecipado com base em receitas futuras da redução de emissões.
Em junho, a AIE anunciou que África tinha garantido 900 milhões de dólares em novos compromissos financeiros para tecnologias de cozinha limpa.
Mais de 30 governos de países que representam cerca de 80% dos africanos sem acesso a cozinha limpa introduziram 121 novas políticas neste domínio desde a cimeira do clima de Paris, em 2015, segundo a mesma agência.
“A cozinha limpa não é um luxo, mas uma necessidade quotidiana que afeta todos os agregados familiares”, disse a Presidente da Tanzânia, Samia Suluhu, depois de coorganizar uma conferência da AIE sobre cozinha limpa em Dar es Salaam este ano – encontro que se seguiu à Declaração de Dar es Salaam sobre Cozinha Limpa, da União Africana, adotada por 30 governos no ano passado.
Peter Scott, fundador e presidente executivo da BURN, empresa que fabrica fogões ecológicos, disse que o financiamento por carbono transformou um produto de energia limpa antes dispendioso num bem acessível a milhões de famílias de baixos rendimentos.
“A única forma de a cozinha limpa ganhar escala no continente é através do financiamento de projetos de carbono. Os governos ganham receita e os clientes obtêm um produto que nunca poderiam pagar sem esse subsídio”, afirmou.
A empresa, sediada em Nairobi, diz já ter distribuído mais de 7,3 milhões de fogões em 11 países africanos.
Segundo Scott, um fogão eficiente a biomassa que normalmente custaria cerca de 40 dólares pode ficar por apenas cinco dólares depois dos subsídios de carbono, enquanto os fogões de indução, mais caros, são financiados através de créditos de carbono e planos de pagamento faseado ao longo de vários meses.
“Os investidores fornecem capital inicial que subsidia o preço de venda dos nossos fogões. Em troca, recebem receita de créditos de carbono gerados à medida que as famílias reduzem o uso de carvão, lenha e outros combustíveis poluentes”, explicou.
O setor tem adotado normas mais rigorosas e métodos mais sofisticados de medição de emissões, incluindo monitorização por Bluetooth, verificação digital e dados de utilização em tempo real, para responder às críticas feitas aos créditos de carbono.
Ainda assim, há quem considere arriscado depender excessivamente deste mecanismo para financiar a transição.
Num revés recente, a empresa queniana Koko Networks, apontada como exemplo da transição verde em África, encerrou em fevereiro depois de não conseguir obter do Governo uma carta de autorização para vender créditos de carbono.
George Mwaniki, representante do World Resources Institute (WRI) no Quénia e responsável pela qualidade do ar do WRI África, disse que o dinheiro do carbono pode ajudar, mas não deve ser o alicerce da transição.
Segundo o especialista, o problema é que o financiamento de carbono chega, regra geral, depois do investimento necessário para instalar equipamento de cozinha mais limpo nas casas.
“O financiamento de carbono é mais uma segunda fonte de financiamento. Isso cria um problema para as empresas de cozinha limpa, que precisam de dinheiro para fabricar e distribuir equipamento antes de conseguirem gerar as reduções de emissões que, em última análise, produzem os créditos de carbono”, disse Mwaniki.
“Se dependermos inteiramente dos créditos de carbono para apoiar a transição, ela será extremamente lenta e não vai acontecer ao ritmo de que precisamos”, disse.
As empresas do setor têm adaptado as soluções às condições locais.
A BURN diz que os fogões elétricos são mais viáveis no Quénia e na Tanzânia, enquanto os fogões a biomassa são preferidos na República Democrática do Congo e em Madagáscar.
A Eco Safi, que opera no Uganda, Quénia e Malawi, oferece fogões a pellets com tiragem forçada e combustível limpo e renovável produzido a partir de resíduos agrícolas.
No Ruanda, a BioMassters fabrica fogões a pellets sem fumo, produzidos localmente e alimentados a energia solar, enquanto a ENEDOM fabrica briquetes de resíduos agrícolas em Kigali.
Para famílias como a de Kavutha, o que importa é que um fogão mais limpo já custa menos a adquirir e a operar do que o carvão de que antes dependiam.
“A minha cozinha está mais limpa, os meus filhos estão mais seguros e gasto menos. É tudo o que importa”, concluiu.
FIM
Escrito por RafaFM
Financiamento por créditos de carbono torna-se aposta central de África para expandir cozinha limpa
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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