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Makassar, 7 de setembro de 2026 (RAFA) – O primeiro-ministro, Kay Rala Xanana Gusmão, alertou no fim de semana para os riscos que a inteligência artificial (IA) representa para a soberania dos Estados, no discurso que proferiu ao receber o grau de Doutor Honoris Causa da Universitas Hasanuddin (UNHAS), em Makassar.
Na sua intervenção, o chefe do Governo defendeu ainda que Timor-Leste precisa de construir resiliência económica para sustentar a independência alcançada.
“Temos de nos perguntar o que acontece quando as empresas tecnológicas se tornam mais ricas e mais poderosas do que os países”, afirmou Xanana, alertando que “a mesma tecnologia que torna o acesso ao conhecimento mais barato pode também tornar o engano mais barato”.
“Se tudo puder ser fabricado, as pessoas poderão também começar a duvidar do que é verdadeiro”, disse.
Para o chefe do Governo, este cenário torna “a educação e o pensamento crítico mais importantes do que nunca”, cabendo às universidades formar pessoas “capazes de formar os seus próprios juízos, em vez de simplesmente aceitarem as respostas dadas pela inteligência artificial”.
No discurso, intitulado “Soberania e Resiliência Nacional num Mundo em Disputa”, Xanana sustentou que “a soberania não é um slogan” e “exige força política e económica”, defendendo que um país “não pode ficar sozinho” num mundo “mais perigoso” e marcado por “mais conflitos armados do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial”.
“O direito internacional está a ser tratado como facultativo, e não como vinculativo, sobretudo pelos países mais poderosos”, pelo que “a cooperação é tão importante para os Estados pequenos e em desenvolvimento”, afirmou.
O líder timorense recordou o processo de delimitação da fronteira marítima com a Austrália, iniciado em 2016 através do primeiro processo de Conciliação Obrigatória ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), e afirmou que o mesmo trabalho prossegue agora com a Indonésia, “através do diálogo e em conformidade com a CNUDM e o direito internacional”.
“Temos alcançado progressos significativos e confio que conseguiremos concluir este trabalho no mesmo espírito de amizade e respeito mútuo que transformou a relação entre os nossos povos”, disse.
Xanana traçou um paralelo entre a resistência timorense e a luta indonésia contra o domínio colonial, evocando a Conferência de Bandung de 1955 e o alerta então lançado pelo Presidente Sukarno de que “o colonialismo poderia regressar sob novas formas, através do poder económico, da pressão política e do controlo exercido a partir do exterior”.
Recordou ainda os 24 anos de resistência à ocupação indonésia, a Consulta Popular de 1999 e o processo de reconciliação entre os dois países, sublinhando a amizade construída com o Presidente indonésio, Prabowo Subianto, antigo general que serviu em Timor-Leste.
“Embora ele e eu tenhamos sido adversários, hoje sentamo-nos juntos como amigos. E é verdade”, afirmou.
O primeiro-ministro reafirmou que Timor-Leste assumirá a presidência da ASEAN em 2029, considerando-o “um momento importante” para o país, e defendeu que a soberania nacional depende também da capacidade de formar recursos humanos qualificados, referindo que mais 57 estudantes timorenses de pós-graduação se juntaram este mês aos que já estudam na UNHAS.
A distinção atribuída a Xanana Gusmão pela Universitas Hasanuddin, no passado sábado, coloca o primeiro-ministro na lista de figuras internacionais de relevo já homenageadas pela instituição, que antes tinha atribuído o mesmo grau ao primeiro Presidente da Indonésia, Sukarno, em 1963, e ao antigo Presidente sul-africano e líder da luta contra o apartheid, Nelson Mandela, em 2005. Segundo a UNHAS, a distinção reconhece o papel de Xanana como símbolo da luta pela independência de Timor-Leste, a sua contribuição para a reconciliação com a Indonésia e a construção de instituições do Estado timorense.
Esta é a 16.ª distinção honorífica atribuída a Xanana Gusmão por universidades de nove países – Portugal, Austrália, Coreia do Sul, Japão, Malásia, China, Camboja, Brasil e, agora, Indonésia -, entre as quais a Universidade de Coimbra, a Universidade do Porto, a Universidade da Madeira, a Victoria University e a University of Melbourne. — RAFA
Escrito por RafaFM
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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