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‎ Nações insulares do Pacífico tentam transformar interesse geopolítico em financiamento climático

todaySetembro 3, 2026 19

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Koror, 03 de setembro de 2026 (RAFA) – Líderes de pequenos Estados insulares do Pacífico renovaram avisos sombrios sobre o seu futuro, à margem da cimeira do Fórum das Ilhas do Pacífico, em Palau, tentando converter o interesse geopolítico das grandes potências em financiamento climático.

Para os países da região, a situação não é um debate sobre o futuro, com muitas comunidades a enfrentarem já os efeitos das mudanças climáticas.

Em Melekeok, uma aldeia de 300 pessoas no maior ilhéu de Palau, o mar já invade as casas quando o tempo piora.

“Continuamos a dizer que precisamos de nos mudar para o interior”, contou Bol Sebalt, funcionária legislativa de 43 anos, nascida e criada na orla costeira baixa. “Mas por falta de financiamento não conseguimos.”

Sebalt, também voluntária formada numa equipa local de preparação para desastres, mudou-se há quase um ano para uma zona a ser preparada no interior para acolher a população de Melekeok, onde continua a ser a única residente – o financiamento para canalização de água, saneamento e iluminação pública suficiente para outros se mudarem tem chegado em pequenas parcelas e demasiado devagar.

“Não conseguimos mudar-nos mais depressa do que as alterações climáticas”, afirmou.

Os líderes reagiam a um relatório inédito das Nações Unidas, divulgado esta semana, que admite pela primeira vez que a Terra deverá ultrapassar o limiar de temperatura segura acordado no Acordo de Paris de 2015 “nos próximos anos”.

Uma consequência do aquecimento provocado pela queima de carvão, petróleo e gás – ainda que recomende esforços para reduzir a temperatura global depois desse período. Para os líderes reunidos em Palau, essa correção chegaria tarde demais.

“As perdas e os danos são uma realidade que já existe atualmente no meu país”, afirmou o ministro da Adaptação Climática do Vanuatu, Ralph Regenvanu.

“Isso só vai acelerar com qualquer ultrapassagem [do limiar], abrangendo perdas económicas e não económicas que nenhum financiamento poderá restituir na totalidade”, acrescentou, referindo que essas perdas incluem “as nossas terras ancestrais, o nosso património, a nossa identidade”.

Segundo a organização científica regional SPC, o aquecimento dos oceanos ameaça devastar as pescas de atum do Pacífico – responsáveis por 30% da captura mundial – e os mangais onde os peixes desovam.

O caos provocado pelo El Niño este ano já deixou partes do Pacífico em seca e outras inundadas, fenómenos que a organização prevê que só se intensifiquem. “Não há outra saída”, afirmou o ministro das Alterações Climáticas do Tuvalu, Maina Talia.

“A única saída para nós é continuar a lutar pelos 1,5°C, para sobrevivermos, para permanecermos nos nossos países.”

O anfitrião da cimeira, o Presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., sugeriu esta semana que os países interessados em maior presença na região deveriam demonstrá-lo através do financiamento de projetos climáticos, incluindo a sua aposta em tornar a região a primeira do mundo totalmente alimentada por energias renováveis.

A rivalidade geopolítica entre a China e Taiwan não tardou, contudo, a manifestar-se, com um incidente na cerimónia de abertura da cimeira depois de enviados de Pequim e de Taipé terem sido sentados na mesma fila.

Um fundo gerido pelos próprios países do Pacífico, criado pelos membros do Fórum para financiar projetos de adaptação de base comunitária na região, tem enfrentado dificuldades porque os principais doadores não comprometeram os montantes esperados.

Alguns citam preocupações de governação sobre o Pacific Resilience Facility, que deverá ter sede em Tonga, mas o modelo constitui também uma novidade para uma região dependente de ajuda externa, habituada a doadores que controlam o destino do dinheiro.

“As instituições financeiras internacionais têm processos muito longos e demorados para disponibilizar o financiamento de acesso direto de que precisamos no Pacífico”, disse à Associated Press o primeiro-ministro de Tonga, Fatafehi Fakafanua.

“O PRF foi propositadamente concebido para responder de imediato às necessidades urgentes da população das Ilhas do Pacífico”, acrescentou. “Isso é algo que distingue o PRF dos modelos financeiros existentes que utilizamos aqui no Pacífico.”

Persistem também tensões entre os pequenos Estados insulares, que constituem a maioria do Fórum, e as suas duas maiores potências e principais doadores, a Austrália e a Nova Zelândia, quanto ao empenho climático destes últimos.

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, disse aos jornalistas em Palau que os líderes do Pacífico compreendem que a transição do seu país para longe dos combustíveis fósseis não pode “acontecer da noite para o dia”, exigindo maior capacidade de geração de energia renovável.

“A Austrália é muito bem vista em matéria de alterações climáticas, e a desvalorização da Austrália não vem de fora do país, faço questão de sublinhar isso”, afirmou.

Uma hora depois, Regenvanu, do Vanuatu, disse aos jornalistas que a Austrália não está a fazer o suficiente.

“A Austrália é um grande produtor de combustíveis fósseis”, afirmou. “O mínimo que um país como a Austrália deveria fazer é travar a expansão futura, e não o está a fazer.”

FIM

 

Escrito por RafaFM

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