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Koror, 02 de setembro de 2026 (RAFA) – A China opôs-se à presença de Taiwan na cimeira do Fórum das Ilhas do Pacífico, em Palau, alegando que a ilha autónoma “não está qualificada” para participar, enquanto Austrália e Nova Zelândia defendem que cabe ao bloco decidir os convidados.
A China considera Taiwan parte do seu território, e as tensões entre as duas partes têm marcado presença na reunião anual do grupo de 18 membros, que integra a Austrália, a Nova Zelândia e nações insulares do Pacífico.
O fórum, cuja cimeira abriu na segunda-feira em Koror, a maior cidade de Palau, não conta a China, os Estados Unidos ou Taiwan entre os seus membros, mas a disputa de influência sobre as águas oceânicas e as localizações estrategicamente importantes dos países-membros voltou a ameaçar ofuscar o encontro.
Palau, país anfitrião este ano, é uma das poucas nações do Pacífico que mantém relações diplomáticas com Taiwan – uma das 11 nações, além do Vaticano, que reconhecem Taipé.
No discurso de abertura da cimeira, o Presidente palauano, Surangel Whipps Jr., afirmou que “os nossos parceiros são bem-vindos a navegar connosco, mas não escolhem o nosso destino”, pedindo às grandes potências que deixem o funcionamento do fórum a cargo dos Estados-membros.
Antes da cimeira, Whipps organizou eventos conjuntos com o ministro dos Negócios Estrangeiros taiwanês, Lin Chia-lung, e, na cerimónia de abertura, colocou os representantes de Pequim e Taipé na mesma fila, ainda que em blocos de lugares separados – um gesto que não passou despercebido face à sensibilidade do dossiê.
Após o evento, o enviado especial da China para os assuntos das Ilhas do Pacífico, Qian Bo, disse a jornalistas em Koror que a presença de responsáveis taiwaneses foi “muito inapropriada”.
Questionado sobre se haveria consequências para Taiwan, respondeu que “há sempre consequências”, negando tratar-se de uma ameaça e sem adiantar mais pormenores.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Guo Jiakun, reiterou que Taiwan não é parceiro de diálogo nem parceiro de desenvolvimento do fórum e que, por isso, “não está de todo qualificada para participar nas atividades do fórum”, acusando o ministro Lin e outros de fazerem “visitas sorrateiras” numa tentativa vã de chamar a atenção.
Lin rejeitou a ideia de que a sua participação fosse ilegítima, acusando Pequim de dividir a região e de atribuir a outros a responsabilidade pelos problemas.
“Quando vamos a uma festa, seguimos sempre as indicações do anfitrião. Mas sempre que a China vai a uma festa, comporta-se como se fosse ela a anfitriã e estraga o ambiente de toda a festa”, declarou.
Segundo a agência AP, o fórum cresceu nos últimos anos de um encontro informal para uma cimeira com cerca de dois mil participantes, à medida que as potências interessadas na região reforçam alianças com os líderes do Pacífico, numa disputa de influência entre a China e os Estados Unidos, Taiwan e os membros do fórum Austrália e Nova Zelândia.
Os países convidados não-membros são designados “parceiros”, com a China a deter estatuto de parceiro de diálogo e Taiwan de parceiro de desenvolvimento – uma presença que já tinha motivado a exclusão de todos os parceiros da cimeira do ano passado, nas Ilhas Salomão.
O enviado especial da China, Qian Bo, tinha já alertado na segunda-feira que a presença de Taiwan teria “consequências”, sem especificar quais. Pequim tem vindo a reduzir gradualmente o número de países do Pacífico com laços formais com Taipé, restando atualmente apenas três – Palau, Tuvalu e as Ilhas Marshall.
O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, disse que caberá ao bloco do Pacífico determinar quem participa na cimeira, sublinhando tratar-se “sobretudo de um encontro da família do Pacífico”. Também o ministro dos Negócios Estrangeiros neozelandês, Winston Peters, afirmou que o grupo não recebe instruções de países de fora do bloco.
Os primeiros-ministros de Fiji, Vanuatu, Samoa e Ilhas Salomão, bem como o Presidente do Quiribáti, não estão presentes na cimeira, tendo enviado ministros de escalão mais baixo em sua substituição – uma ausência que levanta receios sobre o impacto nos resultados da reunião. Quatro dos cinco líderes ausentes invocaram assuntos internos urgentes, enquanto o Presidente do Quiribáti, Taneiti Maamau, alegou a falta de voos comerciais disponíveis e o facto de o parlamento do país estar em sessão, tendo enviado em seu lugar o antigo embaixador do país na China.
Analistas admitem que algumas ausências possam dever-se a pressão de Pequim, embora os presentes tenham minimizado o eventual impacto nas discussões.
“Acho que essa é a grande vantagem do Pacífico: podemos não estar todos aqui, mas a nossa voz continua a ser ouvida”, disse o primeiro-ministro do Tonga, Fatafehi Fakafānua, à agência AP, acrescentando que alguns dos líderes ausentes “ainda estão para chegar”.
Peters manifestou-se “altamente desconfiado” quanto à possibilidade de interferência estrangeira nalgumas destas ausências, sem apontar diretamente o dedo a Pequim, segundo a rádio pública australiana ABC. A China rejeitou as insinuações, considerando-as “infundadas”.
A delegação taiwanesa, chefiada por Lin, inclui representantes das áreas da energia, tecnologia, construção e agricultura.
Apenas em julho, Taiwan doou dois milhões de dólares ao secretariado do fórum, depois de ter prometido três milhões de dólares em 2025 para o Fundo de Resiliência do Pacífico.
As divisões internas do bloco ecoam também entre os próprios membros: recentemente, os ministros dos Negócios Estrangeiros do fórum não conseguiram chegar a consenso sobre uma declaração de crítica ao lançamento, por Pequim, de um míssil balístico no Pacífico Sul em julho – a recusa de dois Estados-membros em subscrever o texto impediu a sua emissão, apesar de a maioria se opor firmemente à ação chinesa.
Os líderes do Pacífico tentam habitualmente centrar a cimeira nos temas que consideram prioritários, como os efeitos das alterações climáticas e as dificuldades económicas ligadas à pandemia de covid-19 e ao início da guerra do Irão, que pesam sobre economias muito dependentes de ajuda externa, turismo e combustíveis importados.
Este ano, o secretariado do fórum determinou que Taiwan é elegível para participar como parceiro de desenvolvimento ao abrigo do quadro do fórum de 1992, decisão de Palau que terá irritado Pequim.
Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos consideram há muito o Pacífico Sul parte da sua esfera de influência. Nesse contexto, Washington e Wellington anunciaram, num comunicado conjunto divulgado esta terça-feira à margem da cimeira, que vão financiar em conjunto uma grande modernização de um porto da Segunda Guerra Mundial num atol das Ilhas Cook.
FIM
Escrito por RafaFM
Tensões entre China e Taiwan marcam cimeira do Fórum das Ilhas do Pacífico em Palau
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