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Indonésia aposta em carvão para expandir produção de alumínio face à guerra no Irão

todaySetembro 1, 2026 23

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Jacarta, 1 de setembro de 2026 (RAFA) – A Indonésia está a expandir a produção de alumínio com recurso a carvão, aproveitando a disrupção causada pela guerra no Irão, numa aposta que contraria os esforços globais contra as alterações climáticas.

Os preços do metal, usado desde papel de alumínio a smartphones e automóveis, subiram devido à escassez de combustível e a ataques a infraestruturas que abrandaram a produção no Médio Oriente.

No esforço para aumentar a sua limitada capacidade industrial, a Indonésia conta com um forte aliado na China, que produz 60% do alumínio mundial, mas procura reduzir a poluição das suas próprias fundições – empresas chinesas investiram em cerca de três quartos dos projetos indonésios planeados.

O Médio Oriente produz habitualmente cerca de 9% do alumínio mundial, mas a produção da região deverá cair 44% este ano face a 2025, segundo a agência de informação sobre matérias-primas Fastmarkets.

A escassez energética levou a Emirates Global Aluminium a desistir de contratos e a Qatar Aluminium Ltd. a cortar a produção, enquanto ataques iranianos danificaram instalações da Aluminium Bahrain.

Uma tonelada métrica de alumínio era transacionada entre 3.150 e 3.250 dólares antes da guerra, mas o conflito fez subir o preço até 3.780 dólares em junho; atualmente ronda os 3.400 dólares.

Segundo Andy Farida, da Fastmarkets, a guerra “acelerou verdadeiramente esta transformação e colocou a Indonésia no mapa”, ao ampliar o potencial de outras regiões, como o Sudeste Asiático, substituírem a produção do Médio Oriente.

O alumínio é um dos metais mais usados no mundo e a sua produção é altamente intensiva em energia: o processo começa com a extração de bauxite, refinada em alumina e depois fundida em alumínio.

Até ao final da década, a Indonésia pretende quadruplicar a sua produção de alumina para 32,5 milhões de toneladas métricas e elevar a produção de alumínio de cerca de um milhão de toneladas em 2025 para 14,5 milhões de toneladas até 2030, segundo o Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo (CREA), organização sem fins lucrativos registada na Finlândia.

O CREA está a monitorizar 32 centrais a carvão fora da rede elétrica, construídas por empresas privadas exclusivamente para alimentar fundições de alumínio – as chamadas centrais de “carvão cativo”.

Segundo Syahdiva Moezbar, do CREA em Jacarta, há dados públicos limitados sobre as emissões deste tipo de centrais.

“Este boom do carvão cativo por toda a Indonésia não está, no essencial, a ser monitorizado. É por isso que é muito preocupante”, afirmou. Estes planos contrariam os compromissos da Indonésia para reduzir o uso de carvão, o combustível fóssil mais poluente e uma fonte significativa de emissões responsáveis pelo aquecimento do planeta, e ameaçam agravar os danos ambientais numa altura em que a expansão da já globalmente relevante indústria indonésia de níquel está a sacrificar ambientes locais em nome da industrialização.

Segundo o Fórum Económico Mundial, a indústria do alumínio é responsável por cerca de 2% das emissões globais anuais de gases com efeito de estufa, o equivalente a cerca de 1,1 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano – mais do que as emissões anuais totais da maioria dos países.

O CREA estima que, se todos os projetos planeados pela Indonésia entrarem em funcionamento até 2030, as próprias reservas de bauxite do país esgotar-se-ão em menos de 12 anos.

A China já investiu entre 5,5 e 6 mil milhões de dólares na indústria indonésia de alumínio, segundo o CREA, que prevê que esse valor suba para 30 mil milhões de dólares até 2030.

Depois de Pequim ter imposto, em 2017, um limite à produção doméstica de alumínio para conter o excesso de capacidade, empresas chinesas expandiram-se para outros países com menos restrições, como a Indonésia, segundo Putra Adhiguna, do Energy Shift Institute, sediado em Jacarta.

A Indonésia classifica o níquel e o alumínio como “minerais de transição”, por poderem ser usados nas chamadas tecnologias limpas, como baterias de veículos elétricos e painéis solares – uma classificação que abre uma brecha para as empresas alegarem que estes investimentos, alimentados a carvão, são compatíveis com os compromissos climáticos.

Isto, apesar de o Presidente chinês, Xi Jinping, se ter comprometido em 2021 a deixar de financiar centrais a carvão no estrangeiro.

Segundo Binbin Mariana, do grupo de defesa ambiental Market Forces, não é claro em que produtos finais vão acabar os metais de origem indonésia, como o alumínio e o níquel.

“É uma brecha enorme, um elefante consegue passar por essa brecha”, afirmou. “Dizem que é um produto verde, mas é alimentado a carvão (…) isso é definitivamente ‘greenwashing’.”

As fundições de alumínio poderiam funcionar com energia mais limpa, como a hídrica, mas essa opção demoraria mais tempo e custaria mais. Segundo Putra Adhiguna, a Indonésia está a priorizar a velocidade para capitalizar a janela de oportunidade criada pela guerra no Irão.

“O fator velocidade é realmente o que está a causar o caos (…) isto vai mesmo contra o espírito do compromisso com o movimento climático”, afirmou.

Segundo Muhammad Al Amin, do Fórum Indonésio para o Ambiente (WALHI), a construção de mais centrais de carvão cativo para alumínio vai agravar a névoa tóxica que frequentemente cobre cidades do Sudeste Asiático, como Jacarta.

A organização não-governamental tem feito campanha contra o aumento do uso de carvão na ilha indonésia de Celebes, um centro de produção de níquel.

“Se as empresas quiserem expandir o carvão cativo para o alumínio, penso que é uma notícia muito má e um desenvolvimento muito mau”, afirmou. “Já vimos, já sentimos, como as comunidades sofrem com o impacto do carvão cativo.”

FIM

 

Escrito por RafaFM

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