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Cientistas defendem curiosidade, e não ambição de emprego, como motor de uma carreira científica

todayAgosto 25, 2026 32

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Díli, 25 de  agosto  de 2026 (RAFA) – Os Nobel Benjamin List e Konstantin Novoselov e o cientista da computação Yannis Ioannidis defenderam hoje que a curiosidade, e não a ambição de um bom emprego ou de prémios, deve motivar quem escolhe seguir uma carreira científica.

A posição dos três cientistas foi vincado num diálogo com jovens timorenses na reta final da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento, organizada em conjunto pela Presidência da República e pelo Governo.

Benjamin List, Nobel da Química 2021, recordou que a curiosidade sobre o mundo, e não uma paixão precoce pela disciplina, o levou à química.

“Não tive física nem química na escola, mas queria compreender o mundo, os materiais, a terra, as estrelas e os humanos. Tinha ouvido que tudo era feito de moléculas e por isso disse que tinha de estudar química”, contou. Sem laboratório na escola, List e um amigo construíram um na cave de casa.

“Comprámos os materiais químicos, disse ao farmacêutico que queríamos fazer detergente para a nossa mãe. Fizemos pólvora, mas depois tivemos um incêndio, e ardeu tudo. E a farmácia era ali perto, e o farmacêutico percebeu que não estávamos a fazer detergente”, recordou. “E pronto, fiquei viciado.”

List defendeu que a química lhe permite viver dois lados: o de compreender a realidade e o de a poder criar.

“A química não responde às grandes perguntas sobre o universo, mas podia fazer coisas divertidas. E isso continua até hoje”, disse, revelando vir de uma família de artistas – pais e irmão -, com exceção de uma tia laureada com o Nobel da Medicina.

Deixou, por isso, um aviso direto aos jovens sobre motivações erradas para seguir ciência.

“Se vos disserem que vão para a ciência porque vão ter um bom emprego, isso está errado. Tem de ser o próprio entusiasmo de cada um. Acaba por ter de vir de um lugar de amor, porque é preciso amar o que se faz. Para mim não é trabalho. É o que quero fazer, quero entender, quero perceber. Sigam o vosso interesse, a vossa curiosidade, a vossa ambição”, afirmou.

Konstantin Novoselov, Nobel da Física 2010, partilhou uma trajetória menos linear até à ciência. Recordou ter abandonado os estudos de física, ainda na Rússia, num período de grandes dificuldades económicas no país, para se dedicar a negócios próprios.

“Estávamos no segundo e terceiro ano da universidade. Boa altura, se calhar a física não é a nossa carreira, se calhar devíamos ir para os negócios. Por isso deixei a ciência e criei empresas de construção”, contou, admitindo que o negócio corria bem e que os amigos que continuaram nessa área são hoje muito ricos.

“Mas, depois de uns anos, percebi que ganhava dinheiro, mas qual era o sentido disso. E tomei a decisão consciente de regressar à ciência. Essa foi a melhor lição que aprendi”, afirmou.

Novoselov reconheceu não ter uma carreira científica convencional.

“Comecei dois doutoramentos e não acabei nenhum, nem sequer tentei o terceiro”, disse. Questionado sobre como atrair mais jovens para a ciência e quais as competências mais essenciais para um cientista, respondeu que ambas as perguntas têm a mesma resposta.

“A competência mais essencial é a curiosidade. Não há qualquer hipótese de entrar na ciência porque se gosta da descoberta ou dos prémios. Tem de ser a curiosidade de perceber como fazer isto ou aquilo”, afirmou, acrescentando que hoje há mais oportunidades de carreira científica do que no seu tempo de estudante, incluindo no setor privado.

“É duro, mas é duro para todos. E há muitas oportunidades para descobertas, para novos projetos. E isso implica mais oportunidades de sucesso”, disse.

Yannis Ioannidis, antigo presidente da Association for Computing Machinery (ACM), traçou um percurso mais gradual até à ciência, motivado pela influência do pai, engenheiro.

“O meu pai era engenheiro e eu estava sempre muito entusiasmado com o que ele fazia. Sempre quis ser engenheiro mecânico, mas acabei por fazer engenharia elétrica”, contou, recordando que, na Grécia da altura, a engenharia informática ainda não tinha grande expressão.

Ioannidis descreveu a ciência como um processo constante entre aprender conhecimento já existente e investigar o que ainda não se sabe.

“Já fiz muitas coisas, mas no meu coração, a minha natureza é a de cientista. Um passo de cada vez que me levou a tornar-me cientista”, afirmou, defendendo que a curiosidade tem de estar associada a paciência e diligência.

“Vai haver dias de depressão, porque os modelos não funcionam. Mas o dia em que a coisa funciona, nada se compara a isso”, disse.

O cientista grego notou ainda que uma carreira científica não implica necessariamente seguir investigação académica, dando como exemplo profissionais que aplicam conhecimento científico na indústria.

E recordou a visita à Sci-Tech Expo, que continua no CCD até ao final da noite de hoje, onde encontrou responsáveis do setor do petróleo e minerais a usar o software Pipesim para planear a construção de gasodutos.

“Precisas de ser cientista para fazer isso, para aplicar esse conhecimento, mesmo que não estejas a descobrir conhecimento novo. Esse é o caminho, sempre motivado pela curiosidade”, afirmou.

Benjamin List é diretor no Instituto Max Planck para a Investigação do Carvão e foi galardoado com o Nobel da Química em 2021, partilhado com David MacMillan, pelo desenvolvimento da organocatálise assimétrica.

Konstantin Novoselov é professor na Universidade Nacional de Singapura e recebeu o Nobel da Física em 2010, partilhado com Andre Geim, pelo trabalho pioneiro sobre o grafeno. Yannis Ioannidis é professor na Universidade de Atenas e antigo presidente da ACM, uma das maiores organizações mundiais dedicadas à ciência da computação.

A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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