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Díli, 24 de agosto de 2026 (RAFA) – O cientista de plantas Howard-Yana Shapiro e o antigo diretor-executivo do Programa Alimentar Mundial (PAM) David Beasley alertaram hoje para os níveis de malnutrição infantil em Timor-Leste, que consideram uma tragédia que pode e deve ser evitada.
Shapiro e Beasley participaram hoje num debate sobre alimentação sustentável no primeiro dia da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento, que decorre no Centro de Convenções de Díli (CCD), analisando um dos maiores desafios do país, onde uma fatia significativa da população timorense ainda lida com insegurança alimentar ou dietas pobres em nutrientes.
Shapiro manifestou-se especialmente preocupado com os níveis de nanismo nutricional (“stunting”) entre crianças timorenses, que classificou como “terríveis”.
“Excede 40% da população rural. É um número terrível. Se cinco de nós estivéssemos a caminhar na rua, duas teriam stunting. Isto é terrível. Sem nutrição adequada não se pode aprender como deve ser”, afirmou.
O cientista sublinhou a importância da nutrição materna antes e durante a gravidez.
“Tantas crianças [nascem] sem nutrição adequada, antes do nascimento, para dar à mãe os nutrientes necessários – folato, vitamina A, zinco e outros nutrientes”, disse, defendendo a necessidade de reforçar os sistemas de uso da terra, produção, certificação de sementes, distribuição e consumo.
“Temos de nos questionar sempre se a comida que estamos a consumir é tão nutriente quanto poderia ser”, afirmou.
Segundo Shapiro, qualquer sistema alimentar deve ser “financeiramente viável, tecnicamente exequível, ambientalmente sustentável, operacionalmente possível de concretizar e social e politicamente aceitável”.
Defendeu ainda que grande parte da comida consumida nas zonas rurais é rica em hidratos de carbono, mas não necessariamente em nutrientes, e apontou a redução de perdas alimentares como uma segunda prioridade.
“Há comida suficiente produzida no mundo, mas muita perde-se. Como garantimos o uso máximo da comida em Timor-Leste?”, questionou.
O cientista defendeu que a produção alimentar tem de ser melhorada, argumentando que nem a terra nem a chuva são o verdadeiro obstáculo em Timor-Leste.
“O problema não é a chuva, é, por exemplo, quanta água recolhemos em reservatórios ou reservas para as épocas mais secas. Há tecnologia para criar bacias de retenção”, disse, defendendo um melhor aproveitamento da água disponível.
“Não queremos que a água corra para o oceano, queremos usá-la para os agricultores, para as comunidades. A água não é um obstáculo”, afirmou, sublinhando ainda a importância de sementes “adaptadas às condições do terreno e do clima”.
Shapiro defendeu que a nutrição deve estar no centro de toda a política alimentar do país, recorrendo a sementes tradicionais – e não a modificação genética – para melhorar a qualidade nutricional dos alimentos disponíveis à comunidade, “especialmente para mulheres jovens, antes da gravidez”, de forma a garantir bebés saudáveis.
“Nenhuma criança deve ir para a cama com fome. Isto parte-nos o coração. Parte-nos o coração quando sabemos que uma criança nasce com stunting. Não devemos permitir que este desastre aconteça, seja a quem for. Este é o princípio básico, basilar”, afirmou. “Esse é o meu grande apelo. Por favor, corrijam o sistema e acabem com a subnutrição e com o stunting.”
David Beasley confirmou a gravidade da situação.
“Os números sobre stunting aqui em Timor-Leste são dramáticos. Mas tem havido progresso, apesar de ainda ser necessário fazer muito mais”, disse, revelando ter discutido o tema com o Presidente José Ramos-Horta na véspera.
“Vamos ver como o PAM, e os êxitos que tivemos noutros países, podemos ajudar a melhorar esta questão de stunting e wasting”, afirmou, sublinhando que o problema não se limita aos primeiros mil dias de vida da criança, mas também aos nove meses de gestação.
Beasley traçou um retrato global agridoce da luta contra a fome.
“Há 200 anos, quando a população mundial era 1,1 mil milhões, entre 80% e 85% vivia na pobreza. Hoje, com 8 mil milhões de pessoas, menos de 9% vive em pobreza extrema. Estamos a melhorar as coisas, com sistemas mais fortes e mais partilha”, disse.
Ainda assim, lamentou que, apesar de existir comida suficiente para alimentar toda a população mundial, 350 milhões de pessoas continuem a enfrentar a fome, devido ao desperdício no campo e à mesa – volume que, segundo Beasley, poderia alimentar mais de mil milhões de pessoas.
O antigo responsável do PAM defendeu que Timor-Leste pode evitar essas perdas através de melhores sementes, que exigem menos água, pesticidas e herbicidas, resultando em “plantas mais saudáveis para as nossas crianças”.
Beasley alertou ainda que parte dos progressos alcançados na luta contra a fome está a recuar devido ao impacto das alterações climáticas de origem humana, agravado por conflitos e fenómenos como o El Niño.
“Hoje enfrentamos crise atrás de crise”, disse, admitindo que a falta de financiamento obriga o PAM a decisões extremas. “Sem dinheiro suficiente e apoio suficiente, temos de decidir que crianças salvamos e quais deixamos morrer. Esta é a realidade de uma organização como o PAM, diariamente”, afirmou.
Ainda assim, manifestou esperança de que a fome global possa um dia deixar de justificar a existência do PAM. “Temos razões para ter esperança”, concluiu.
Howard-Yana Shapiro é cientista de plantas e especialista em agrofloresta, tendo sido diretor-executivo de ciência agrícola na Mars Incorporated, onde liderou programas de investigação sobre culturas como o cacau. É atualmente investigador na Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis).
David Beasley é ex-governador da Carolina do Sul e foi diretor-executivo do PAM entre 2017 e 2023. Em 2020, o PAM foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz, pelos esforços no combate à fome e na promoção da paz em zonas de conflito, reconhecimento atribuído à organização sob a sua liderança.
A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.
A cimeira decorre até terça-feira e é aberta ao público.
FIM
Escrito por RafaFM
Especialistas alertam para níveis "terríveis" de malnutrição infantil em Timor-Leste no painel sobre alimentação sustentável da cimeira
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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