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Xanana Gusmão alerta que IA pode tornar desinformação “mais barata” e ameaçar soberania

todayAgosto 24, 2026 80

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Díli, 24 agosto 2026 (RAFA) – O Primeiro-Ministro Xanana Gusmão alertou, na abertura da Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026, que a inteligência artificial pode facilitar a desinformação e representar um risco para a soberania de países como Timor-Leste, ao mesmo tempo que defendeu a aposta do país no conhecimento científico.

“A mesma tecnologia que torna o conhecimento mais barato também pode tornar a desinformação mais barata”, afirmou o Chefe do Governo, perante um auditório que reúne mais de duas dezenas de laureados com o Nobel e o Turing, além de especialistas e convidados de vários setores da ciência e da inovação, num encontro aberto ao público.

Xanana Gusmão alertou que a inteligência artificial pode criar “vozes e imagens realistas” de acontecimentos que nunca ocorreram.

“O perigo não é apenas que as pessoas acreditem no falso. Se tudo pode ser fabricado, as pessoas começam a duvidar do que é verdade”, disse, referindo-se ainda a burlas e fraudes que classificou como um problema já presente.

O Chefe do Governo associou este risco a uma questão de soberania mais ampla, ligada à concentração do controlo tecnológico global.

“Temos que perguntar o que acontece quando empresas são mais ricas do que países e controlam tecnologias de que governos, empresas e as nossas comunidades dependem”, afirmou, acrescentando que a inteligência artificial “pode espalhar conhecimento, mas concentrando o controlo da tecnologia em poucas mãos”.

Segundo Xanana Gusmão, sistemas de inteligência artificial “empacotam a riqueza do conhecimento humano” – construído “ao longo de milénios” – e vendem-no “a custo de subscrição mensal”, processo hoje “controlado e comercializado por uns poucos”.

Apesar do alerta, o Primeiro-Ministro reconheceu os benefícios que sucessivas vagas tecnológicas trouxeram ao desenvolvimento humano, citando os avanços em medicamentos e antibióticos, que permitiram às populações “viver mais tempo e vidas mais saudáveis”, bem como os progressos na agricultura, que ajudaram as sociedades “a produzir mais comida”.

Apontou ainda as alterações climáticas como uma das consequências negativas desse mesmo processo de mudança.

Xanana Gusmão começou por agradecer aos cientistas e investigadores presentes.

“Estamos honrados de que tantos cientistas, investigadores e líderes tenham viajado até ao nosso jovem país para esta importante cimeira”, disse, admitindo com humor as suas próprias limitações na matéria: “o meu problema é que não entendo nada de ciência.”

O Primeiro-Ministro traçou a evolução do país desde a luta armada até ao momento atual. “Durante 24 anos, a luta dos timorenses foi pela soberania. Lutámos porque acreditávamos que tínhamos o direito a determinar o nosso próprio futuro e que nenhum outro país deveria decidir esse futuro por nós”, afirmou.

Depois da restauração da independência, disse, o país teve de “ultrapassar décadas de conflitos, estabelecer instituições democráticas, construir um Estado” e as infraestruturas de que necessita. “Agora o nosso desafio é o desenvolvimento”, vincou.

Xanana Gusmão defendeu que Timor-Leste “não se pode permitir ficar para trás” perante a transformação tecnológica em curso.

“Países que entendem estas mudanças e aprendem a usá-las terão novas oportunidades. Quem falhar nisso arrisca-se a ficar ainda mais para trás”, disse, notando a rapidez com que os timorenses têm adotado computadores, telemóveis e redes sociais, e antecipando que a inteligência artificial “vai ser parte da vida diária” do país.

O Primeiro-Ministro apontou a falta de pessoas com qualificações especializadas como uma das maiores barreiras ao desenvolvimento de Timor-Leste.

“Somos um país pequeno e jovem. Vai demorar tempo a educar e a formar todos os médicos, engenheiros, professores e outros especialistas de que necessitamos. Nada pode substituir o investimento no nosso povo”, afirmou, defendendo que o Governo precisa de compreender bem as tecnologias que decide adotar, “para poder capitalizar nos benefícios, protegendo o nosso povo e o nosso país dos riscos”.

O Chefe do Governo recordou ainda que a independência deve traduzir-se em melhorias concretas para a população.

“A nossa população não lutou pela independência apenas para ter a nossa bandeira, hino e um lugar nas Nações Unidas. A independência deve também permitir melhorar a vida do nosso povo”, afirmou, apontando a necessidade de melhores cuidados de saúde, educação, segurança alimentar, agricultura mais produtiva e uma economia capaz de gerar empregos e oportunidades para os jovens.

Xanana Gusmão terminou com um apelo direto aos jovens presentes na sala, dizendo sentir-se “contente e impressionado” com a sua presença.

“Apelo para que estudem, para que melhorem os seus conhecimentos”, disse, defendendo que a tecnologia deve continuar ao serviço do desenvolvimento humano.

“Temos que perceber que a tecnologia é instrumento para melhorar a vida humana, não para reduzir o que nos faz humanos”, afirmou, deixando “espaço à poesia da vida”.

A Cimeira de Ciência para o Desenvolvimento 2026 decorre até terça-feira no Centro de Convenções de Díli (CCD) e é aberta ao público.

A RAFA é parceira de media da cimeira e vai transmitir em direto, com tradução em tétum, todas as sessões do evento, além de garantir um acompanhamento noticioso detalhado.

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Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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