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Trabalho doméstico e de cuidado de outros e emprego vulnerável aprofundam desigualdade económica das mulheres

todayAgosto 19, 2026 51

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Díli, 19 de agosto de 2026 (RAFA) – Entre 27% e 54% das mulheres em idade ativa nos municípios timorenses estão fora da força de trabalho devido a responsabilidades domésticas ou de cuidados de outros, segundo o Perfil de Género dos Municípios de Timor-Leste, lançado esta segunda-feira pelo Governo e pela ONU Mulheres.

O documento, produzido pelo Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL, I.P.) em parceria com a Secretaria de Estado para a Igualdade (SEI) e a ONU Mulheres, tem por base o Censo da População e Habitação 2022 e fornece dados comparáveis para os 13 municípios do país e para a Região Administrativa Especial de Oecusse-Ambeno.

O estudo indica que 13 dos 14 municípios do país são predominantemente rurais, com a proporção de população rural a variar entre 81% em Oe-Cusse e 100% em Atauro, o único município totalmente rural do país.

As crianças com menos de 15 anos representam cerca de um terço da população na maioria das áreas – chegando a 38% em Ainaro e Manufahi -, o que gera uma procura sustentada por cuidados infantis, particularmente acentuada em zonas com menor acesso a infraestruturas, serviços e oportunidades de emprego.

Bobonaro, Ermera e Baucau destacam-se pela elevada proporção de mulheres fora do mercado de trabalho por motivos de cuidados: mais de 40% das mulheres inativas nestes municípios apontam esta razão, mais do dobro da proporção registada entre os homens.

Em Bobonaro, por exemplo, 51% das mulheres inativas citam cuidados familiares, contra 23% dos homens; em Baucau, a proporção é de 44% contra 17%.

Este fosso é particularmente acentuado entre os 30 e os 44 anos, coincidindo com o período de maior responsabilidade parental – em Baucau, 72% das mulheres nesta faixa etária referem cuidados de outros como razão principal para estarem fora do mercado de trabalho.

Em quase todos os municípios, o rácio de dependência – o número de dependentes por cada 100 pessoas em idade ativa – é mais elevado entre mulheres em zonas rurais do que entre homens ou populações urbanas, evidenciando uma distribuição desigual da carga de cuidados.

Ainaro, Manatuto e Oe-Cusse registam alguns dos rácios de dependência mais altos do país entre mulheres rurais, acima de 78 dependentes por 100 pessoas em idade ativa.

Em contraste, Díli apresenta o rácio mais baixo do país, de 57 em zonas rurais e 49 em zonas urbanas, refletindo a sua estrutura demográfica mais envelhecida e urbana.

O relatório destaca ainda uma tendência positiva: entre 2015 e 2022, o rácio de dependência caiu em praticamente todos os municípios, sinalizando uma potencial “janela de oportunidade demográfica” – um período em que uma população em idade ativa proporcionalmente maior pode impulsionar o crescimento económico, desde que acompanhado de investimento em sistemas de cuidados.

Ermera registou a queda mais acentuada, de 87 para 69 dependentes por 100 pessoas em idade ativa, seguido de Ainaro (de 105 para 81) e Lautém (de 100 para 76).

Mesmo quando empregadas, as mulheres timorenses continuam sobrerrepresentadas em formas de trabalho precário, com menor estabilidade de rendimento, proteções laborais e acesso a redes de segurança social.

Aileu regista a taxa mais alta de emprego vulnerável do país entre mulheres, impulsionada sobretudo pelo trabalho por conta própria em zonas rurais, onde a diferença entre mulheres e homens é acentuada (66% contra 54%).

Bobonaro apresenta a maior proporção de trabalhadoras familiares não remuneradas em zonas rurais do país e um dos maiores fossos de género neste indicador.

Liquiçá destaca-se com o maior fosso de género do país em emprego vulnerável – 14 pontos percentuais – sendo também o único município onde esta vulnerabilidade é elevada tanto em zonas rurais como urbanas. Díli é, em contrapartida, o município com a taxa mais baixa de emprego vulnerável, tanto para mulheres como para homens.

A produção de subsistência continua a ser um pilar central, ainda que frequentemente invisível, da economia das mulheres rurais.

Em Aileu, 47% da população em idade ativa está envolvida em atividades agrícolas para venda ou autoconsumo, a proporção mais alta do país; em Lautém, essa participação ronda os 23%.

Em Ermera, 87% das mulheres que participam em agricultura fazem-no apenas ou principalmente para autoconsumo, a proporção mais alta do país, um padrão que se repete na pesca e na produção animal.

O envolvimento em produção de subsistência aumenta com a idade em quase todos os municípios, atingindo os valores mais altos entre mulheres idosas – 89% em Ermera e 84% em Lautém.

Em Atauro, 30% das mulheres fora da força de trabalho dedicam-se a produção agrícola para autoconsumo, uma das proporções mais altas do país, sublinhando o papel destas atividades na segurança alimentar dos agregados, mesmo quando não são contabilizadas nas medidas convencionais de participação económica.

Noutro âmbito, o relatório mostra ainda que as mulheres e raparigas com deficiência enfrentam desvantagens compostas ao longo da vida.

Entre 58% e 89% nunca frequentaram a escola, consoante o município, com Díli a registar o valor mais baixo (58%) e Covalima o mais alto (89%). Em quase todos os municípios, a participação das mulheres com deficiência no mercado de trabalho é inferior à dos homens na mesma condição – em Covalima, apenas 12% das mulheres com deficiência participam na força de trabalho, contra 28% dos homens, o valor mais baixo do país para mulheres; em Bobonaro, os valores são ainda mais reduzidos, de 17% e 18%, respetivamente.

Atauro é exceção parcial: regista a taxa de prevalência de deficiência mais alta do país (22,4% entre mulheres idosas e 19,4% entre homens idosos) mas também a maior participação laboral entre mulheres com deficiência, de 33%. Em Baucau, a prevalência de deficiência entre mulheres idosas ultrapassa ligeiramente a dos homens (12% contra 11%), um padrão de “feminização” da deficiência em idade avançada que se repete em quase todos os municípios.

Na cerimónia de lançamento do documento, responsáveis governamentais notaram que estas barreiras educativas ligadas à deficiência estão associadas a piores resultados em termos de emprego e participação social em fases posteriores da vida, defendendo o reforço da educação inclusiva, da acessibilidade a serviços e infraestruturas, e o aumento de oportunidades de emprego digno e seguro para mulheres com deficiência, numa abordagem que classificaram como interseccional.

O relatório recomenda políticas integradas que reconheçam, reduzam e redistribuam o trabalho de cuidados não remunerado, associadas a investimento em serviços de infraestrutura e ao reforço de vias de acesso a emprego digno para mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo através de cooperativas lideradas por mulheres e apoio a pequenas empresas agrícolas e pesqueiras.

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Escrito por RafaFM

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