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Festival Literário 2026 alerta para “Crise Silenciosa” da Leitura em Timor-Leste

todayAgosto 10, 2026 123 22 5

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Díli, 10 de agosto de 2026 (RAFA)- O Movimento Leitura para a Transformação Social (LETRAS) considera a fragilidade da cultura da leitura em Timor-Leste uma “crise silenciosa” que pode comprometer a capacidade da sociedade para analisar a realidade, produzir conhecimento e participar criticamente no desenvolvimento do país.

Esta preocupação estará no centro da 4ª edição do Festival Literário, que decorrerá de 6 a 8 de setembro de 2026, na Fundação Oriente, em Díli, subordinado ao tema “Ler para a Transformação Social”.

Segundo o coordenador do Movimento LETRAS, Benito Sanches Savio, a situação da leitura no país exige uma resposta que vá para além da realização de atividades culturais pontuais.

Benito defende que uma sociedade com uma cultura de leitura frágil enfrenta consequências diretas para a capacidade dos seus cidadãos de compreender e transformar a realidade.

“A atual cultura de leitura em Timor-Leste é extremamente preocupante. Uma fraca cultura de leitura afeta a capacidade dos cidadãos para analisar, produzir e utilizar informação e, na perspectiva dos recursos humanos, tem sido uma grande preocupação no processo de desenvolvimento.”

O coordenador acredita que o problema pode ter consequências profundas para o futuro do país e defende que a promoção da leitura deve ser uma prioridade nacional.

“Uma cultura de leitura fraca é uma crise silenciosa para o futuro de Timor-Leste. Uma nação que não lê é uma nação que não sabe pensar por si própria. A incapacidade dos cidadãos para ler pode determinar a incapacidade do país para se tornar uma nação desenvolvida.”

É neste contexto que o Movimento LETRAS promove a quarta edição do Festival Literário, integrada num conjunto mais vasto de iniciativas destinadas a promover a leitura, a escrita, o debate e a produção de conhecimento em Timor-Leste.

Segundo Benito, o movimento visa mobilizar recursos e esforços para transformar a leitura numa questão de interesse nacional e evitar que a atual fragilidade da literacia se torne uma ameaça concreta para as gerações futuras.

“O Movimento LETRAS existe para mobilizar todos os esforços e recursos disponíveis e promover uma campanha de leitura como prioridade nacional, para prevenir esta crise silenciosa antes que ela se manifeste amanhã como uma ameaça real para o nosso país.”

A iniciativa não se limita, por isso, à leitura de livros. O Movimento LETRAS defende uma conceção mais ampla de literacia, que passa pela leitura, escrita, debate, pensamento crítico, criatividade e produção de conhecimento.

Entre as iniciativas desenvolvidas pelo movimento estão campanhas de leitura, como “Okupa Jardín”, workshops de escrita, debates, sessões de formação, sessões “Uma Hora com um Livro”, pesquisas, publicações e abertura de bibliotecas ao público.

O festival pretende unir crianças, jovens, estudantes, pais, artistas, escritores, leitores, bibliotecas, movimentos sociais e comunidades literárias, criando um espaço de diálogo e participação em torno da importância da literacia para o desenvolvimento nacional.

O programa inclui debates sobre economia e política, feminismo, arte e literatura de resistência, bem como discussões sobre livros e sessões de partilha de experiências de criação artística e literária.

Estão ainda previstos workshops de escrita criativa, colagem e produção de zines, uma feira do livro e atividades que ligam a literatura às artes, incluindo pintura ao vivo, música ao vivo, teatro, recitais de poesia, contos, exposições de arte, o lançamento do Cinema Maubere e da revista LetrAsRT.

Para Benito, a juventude ocupa uma posição central nesta estratégia.

“O Festival Literário é um espaço estratégico para incentivar, motivar e dinamizar a vontade e o potencial dos jovens no âmbito da literacia, através de programas que combinam debate, escrita, arte, música e literatura.”

O Movimento LETRAS espera que o festival contribua para a formação de uma consciência mais crítica junto das crianças, jovens, estudantes e comunidades, ao mesmo tempo que fortalece a cooperação entre escritores, bibliotecas, movimentos sociais e outras organizações ligadas à literatura.

O Movimento LETRAS entende que a literatura e a arte desempenham um papel que vai para além do entretenimento ou da expressão cultural. Podem preservar a memória, questionar a realidade e estimular a sociedade a refletir sobre a sua própria condição.

Neste sentido, Benito defende que uma sociedade justa, democrática e igualitária necessita de cidadãos capazes de compreender criticamente a sua história, identidade, cultura e realidade social, económica e política.

“Uma sociedade igualitária, justa e democrática deve ser construída sobre uma sociedade consciente da sua história, identidade, cultura e realidade social, económica e política. É uma sociedade que sabe ler a realidade de forma objetiva, sistemática e científica.”

O coordenador rejeita também uma visão limitada da literacia como simplesmente a capacidade de ler e escrever.

“A literacia não é apenas uma questão de alta cultura, nem se limita à capacidade de ler e escrever ou ao conhecimento teórico. Deve estar orientada para uma prática concreta de emancipação e transformação social, capaz de libertar um povo da pobreza e da miséria.”

Para apoiar esta visão, o Movimento LETRAS baseia-se também na literatura timorense, destacando poemas de Borja da Costa, incluindo Hatene Hodi Hakarak e Povu Maubere La Sai Tan Atan ba Ema Ida, como exemplos da relação entre conhecimento, consciência e libertação.

Segundo Benito, a literatura pode ajudar os cidadãos a compreender as razões da sua própria condição e a procurar alternativas para a transformar.

“O povo Maubere precisa de saber por que e por quem vive nesta situação. No Movimento LETRAS, acreditamos que podemos responder a estas questões através da leitura, formando novas pessoas conscientes dos seus próprios problemas e capazes de definir alternativas adequadas para a libertação total e completa.”

A iniciativa assume, assim, uma dimensão social e política. O Movimento LETRAS considera que promover a leitura significa também fortalecer a autonomia intelectual dos cidadãos e a capacidade de produzir conhecimento a partir da própria realidade timorense.

Inspirado pela ideia de que a educação pode transformar as pessoas e que estas podem transformar o mundo, Benito defende que a leitura deve estar na base deste processo.

“A campanha de leitura não é apenas uma atividade cultural, mas uma ação política e uma forma de resistência para manter a humanidade de pessoas que vivem livremente e numa sociedade justa, sem exploração.”

Para o coordenador, Timor-Leste precisa de cidadãos que não sejam apenas consumidores de ideias produzidas fora do país, mas também produtores do seu próprio conhecimento.

“Precisamos de produzir o nosso próprio conhecimento, de acordo com a orientação do povo Maubere, para alcançar a libertação total e completa”.

O Festival Literária 2026 procura, assim, deixar uma mensagem que vai para além dos três dias de programação. O objetivo do Movimento LETRAS é contribuir progressivamente para a construção de uma sociedade onde a leitura faça parte do quotidiano e seja um instrumento de consciência coletiva.

“O Festival Literária é um espaço para estarmos juntos, para discutirmos e construirmos uma consciência coletiva. É um espaço de reflexão e de ação, de transformação social.”

Na sua mensagem final, Benito resume a visão do Movimento LETRAS numa sequência que procura conectar a leitura, o conhecimento e a mudança social:

“Ler é resistência, porque um povo que lê é um povo que pensa. Um povo que sabe pensar não é dominado por discursos falaciosos. Um povo que não é dominado liberta-se. Por isso, o LETRAS acredita: lemos, conhecemos, mudamos.”

A 4ª edição do Festival Literário, que decorre de 6 a 8 de setembro, pretende reunir o público em geral, sem restrições de idade ou profissão, incluindo crianças, jovens, estudantes, artistas, escritores, leitores, bibliotecas e movimentos literários e sociais.

Para o Movimento LETRAS, o desafio não termina com o encerramento do festival. O objetivo é transformar a leitura numa prática permanente e coletiva, capaz de fortalecer o pensamento crítico, a criatividade e a participação dos cidadãos na construção de um Timor-Leste mais justo e democrático, consciente da sua própria realidade.

Jornalista: Miguel Caldas

Escrito por RafaFM

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Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

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