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Filho de Lemos Pires defende que Portugal nunca aceitou entregar Timor à Indonésia

todayJulho 23, 2026 154

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Díli, 23 de julho de 2026 (RAFA.TL) – Nuno Lemos Pires, atual diretor-geral de Política de Defesa Nacional de Portugal, afirmou, no Largo do Carmo, que os responsáveis portugueses em 1974-75 “nunca aceitaram entregar Timor-Leste à Indonésia”, ao apresentar o “Relatório Riscado”, agora reeditado.

O historiador e coronel, filho do último governador de Timor português, Mário Lemos Pires, discursou em 22 de julho na apresentação do “Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento ao Processo de Descolonização de Timor”, conhecido como “Relatório Riscado”, elaborado em 1976 por uma comissão presidida pelo brigadeiro Francisco Riscado e apenas desclassificado em 1981.

A obra foi agora reeditada pela Imprensa de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, com coordenação de Zélia Pereira, Pedro Aires Oliveira e Manuel Martins e apresentada esta quarta-feira em Lisboa.

No início da intervenção, Lemos Pires assumiu a sua ligação pessoal ao tema: “não posso ser emocionalmente imparcial, assumo sem medo, mas também sei ser objetivo, racional e convicto”. Recordou ter visitado Timor-Leste três vezes nos últimos quatro anos e descreveu como “avassalador” o respeito e a amizade sentidos por parte dos timorenses para com a sua família, fruto de “uma confiança recíproca edificada ao longo de mais de cinco décadas”.

Isso, somado à investigação feita em arquivos internacionais desclassificados “nas últimas duas décadas (em especial o dos EUA)”, disse, dava-lhe condições “de poder dar um contributo útil neste evento”.

Citando telegramas da diplomacia norte-americana entre Jacarta e Lisboa, o orador sustentou que “os responsáveis de Portugal (garantidamente, os que estavam no território nos anos de 1974 e 75) nunca aceitaram entregar Timor-Leste à Indonésia, mesmo que se tenham levantado suspeitas de que haveria diferentes visões no Governo de Lisboa”.

Lemos Pires defendeu ainda que “os portugueses presentes no território não apoiaram nenhum dos partidos (…), não se viraram contra os timorenses, e nem permitiram imiscuir-se entre eles – não houve sangue derramado de Portugal contra os Timorenses”.

Segundo o mesmo, Portugal “tentou efetivamente que houvesse uma descolonização séria: com o tempo necessário (considerados de 2 até 6 a 8 anos) para permitir uma transição pacífica e sustentada”, sem nunca ter afastado nenhuma das três saídas então em aberto: independência, união a Portugal ou integração na Indonésia.

O orador afirmou estar “provada” a ingerência indonésia em Timor-Leste “anos antes de 1974: desde o golpe em Timor-Leste (TL) em 1959, apoiado pela Indonésia e fortemente reprimido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE)”, até às “atividades antiportuguesas promovidas pelo cônsul indonésio” antes do 25 de abril de 1974.

Sobre o contexto interno português, Lemos Pires ligou o isolamento vivido pelos responsáveis no terreno após a invasão de dezembro de 1975 aos efeitos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), “porque a preocupação era Angola e vivia-se uma situação interna muito instável no denominado ‘verão quente de 1975′”.

Na síntese final, citou o historiador António Barrento para descrever o seu pai – “quanto às projeções que lhe fazíamos, ele [Lemos Pires] conseguia ver mais longe do que nós” – e reconheceu que “Portugal poderia ter feito mais, mas estava (sempre esteve) demasiado longe e com outros problemas maiores (PREC e Angola)”.

Segundo o orador, “a Indonésia nunca quis outra solução que não fosse a integração” e “a ONU foi chamada demasiado tarde e sem vontade de tomar posição”, tendo sido “poucos cidadãos, mas decididos”, em Portugal e nos países da CPLP, que “mantiveram acesa a chama da autodeterminação” até ao massacre do cemitério de Santa Cruz, em 1991, que “provou a razão e a nobreza do que se tentava alcançar”.

Lemos Pires concluiu com uma referência a essa “catarse coletiva feita” e a “explicações mais bem assumidas”, afirmando que “se conseguiu uma vitória do Sistema Internacional baseado em Regras” e que “o multilateralismo provou-se vencedor” na resistência do povo timorense.

Recorde-se que o “Relatório Riscado” resultou de uma comissão ordenada em 27 de julho de 1976 pelo então recém-eleito Presidente da República, António Ramalho Eanes, com o objetivo de apurar responsabilidades políticas e militares no processo de descolonização de Timor.

A iniciativa surgiu no rescaldo de um período conturbado, marcado pela invasão indonésia do território, pela espera do regresso de militares portugueses detidos pelas autoridades indonésias e de refugiados timorenses, e por acusações trocadas na imprensa.

Presidida pelo brigadeiro Francisco Riscado, a comissão ouviu dezenas de intervenientes no processo, na sua maioria militares, concluindo o relatório ao fim de poucos meses de trabalhos.

O documento foi mantido secreto durante vários anos, só tendo sido desclassificado em 1981, na sequência de nova polémica pública sobre a descolonização.

A edição agora apresentada no Largo do Carmo baseia-se em investigação original e em materiais entretanto desclassificados, com nova introdução e anotações da autoria de Zélia Pereira, Pedro Aires Oliveira e Manuel Martins, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.

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Escrito por RafaFM

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