Desporto

Inglaterra e Argentina reencontram-se em meias-finais carregadas de história e tensão política

todayJulho 15, 2026 12

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Díli, 15 de julho de 2026 (RAFA.TL) – A Inglaterra defronta a Argentina na sexta-feira, em Atlanta, na meia-final do Campeonato do Mundo de futebol, um encontro que reacende uma das rivalidades mais intensas do desporto mundial, marcada por décadas de incidentes dentro e fora do relvado.

Confrontos marcados por acusações mútuas de falta de desportivismo e até por um pano de fundo de conflito bélico que ainda hoje pesa sobre os confrontos entre as duas seleções.

O historial entre as duas equipas remonta ao Mundial de 1966, disputado em Inglaterra, um jogo dos quartos-de-final particularmente tenso opôs as duas seleções em Wembley.

Vários jogadores de ambos os lados foram advertidos ao longo do jogo, mas o momento mais marcante foi a expulsão do capitão argentino Antonio Rattín, inicialmente admoestado por uma falta sobre Bobby Charlton e depois expulso pelo árbitro alemão Rudolf Kreitlein por aquilo que este classificou como “violência verbal”.

O próprio árbitro viria a admitir não compreender a língua de Rattín, mas garantiu perceber pela sua expressão facial o teor do que dizia.

O capitão argentino demorou mais de cinco minutos a abandonar o relvado e, antes de sair, amarrotou uma bandeirola de canto e sentou-se, obrigando à intervenção do responsável arbitral inglês Ken Aston.

O episódio ficaria na história do futebol como um dos catalisadores da introdução dos cartões amarelo e vermelho, adotados pela primeira vez no Mundial seguinte, disputado no méxico em 1970.

A Inglaterra viria a vencer o encontro por 1-0, com um golo tardio de Geoff Hurst, mas o então selecionador inglês, Alf Ramsey, recusou-se a autorizar a troca de camisolas entre as equipas no final da partida.

Ramsey terá lamentado publicamente o que descreveu como desperdício de talento argentino, afirmando que o melhor futebol da sua equipa surgiria apenas “contra o tipo certo de oposição – uma equipa que vem para jogar futebol e não para agir como animais”.

A animosidade entre as duas nações agravou-se de forma decisiva com o conflito armado de 1982 pela soberania do arquipélago que a Argentina designa por Islas Malvinas e o Reino Unido por Falkland Islands.

Reivindicado por Buenos Aires desde o século XIX, o território foi invadido por forças argentinas em abril daquele ano; em junho, após 74 dias de combates, a Argentina rendeu-se. O conflito custou a vida a 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e três habitantes das ilhas.

Foi neste contexto que as duas seleções voltaram a defrontar-se nos quartos-de-final do Mundial do México, em 1986.

Na sua autobiografia “Yo Soy El Diego”, Diego Maradona reconheceria que, ao saber do sorteio que colocava a Argentina frente à Inglaterra, os jogadores culpabilizaram os ingleses por tudo o que o povo argentino havia sofrido, descrevendo o sentimento como algo mais forte do que a própria vontade da equipa, motivado pela defesa da bandeira, dos mortos e dos sobreviventes do conflito.

O jogo ficaria indelevelmente associado ao momento mais controverso da história dos mundiais: após um desarme mal-executado de Steve Hodge, Maradona antecipou-se ao guarda-redes inglês Peter Shilton e desviou a bola para a baliza com a mão, num gesto que o árbitro não assinalou.

O avançado argentino descreveria mais tarde o lance como tendo sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus” – expressão que passaria à posteridade como “a mão de Deus” e que continua a marcar a relação da Inglaterra com a figura de Maradona.

Vinte e dois anos depois, as duas seleções voltaram a cruzar-se num Mundial, desta vez nos oitavos-de-final em Saint-Étienne, França, num jogo que voltou a ficar marcado pela polémica. Com a Inglaterra a vencer por 2-1, após um golo do então jovem avançado Michael Owen considerado um dos melhores da história dos mundiais ingleses, David Beckham foi expulso por um pontapé de retaliação sobre o argentino Diego Simeone, que caiu de forma teatral no relvado.

O episódio transformou Beckham, durante anos, em alvo de forte contestação popular em Inglaterra, situação que só seria revertida quando o médio inglês apontou o golo decisivo de grande penalidade frente à própria Argentina, quatro anos depois, em Sapporo, no Japão.

O encontro de quinta-feira em Atlanta assinala o primeiro reencontro entre as duas seleções num Campeonato do Mundo em 24 anos.

Apesar da ausência de confrontos diretos nos últimos torneios, o sentimento entre adeptos, jogadores e as próprias nações não arrefeceu.

Nas redes sociais, a conta oficial da seleção argentina em língua inglesa publicou, após a vitória sobre o Egito por 3-2 no prolongamento, um vídeo dos jogadores a entoar cânticos dedicados “às Malvinas, a Diego, ao último título de Leo [Messi]”, referências que motivaram reações críticas.

A Federação de Veteranos de Guerra de 2 de abril emitiu um comunicado a apelar à separação entre desporto e política, sublinhando que “a soberania se defende em fóruns internacionais através da diplomacia, da verdade histórica e da reivindicação pacífica e irrenunciável consagrada na nossa constituição nacional” – um apelo que contrasta, no entanto, com os próprios cânticos entoados pelos jogadores argentinos durante o torneio.

Perante o clima de tensão, as autoridades de Atlanta reforçaram o dispositivo policial nas ruas da cidade antes do encontro.

A Argentina deverá entrar em campo com o equipamento alternativo azul-escuro, o mesmo que utilizou nos confrontos de 1986 e 1998 frente à Inglaterra, numa referência simbólica aos duelos anteriores entre as duas seleções.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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