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Nações Unidas, 19 de junho de 2026 (RAFA.TL) – Quase 25 mil crianças envolvidas em conflitos armados foram vítimas de um número recorde de abusos no ano passado, incluindo mortes, violações sexuais e recrutamento para combate, segundo um relatório das Nações Unidas.
O relatório anual do secretário-geral da ONU, António Guterres, apresentado esta semana, mostra que forças governamentais foram, pela primeira vez, os principais responsáveis desses abusos, com Israel a liderar a lista.
O documento inclui uma lista negra de violadores dos direitos das crianças, composta por forças governamentais de oito países e 67 grupos armados de 16 países e territórios.
O número total de violações – que inclui também raptos, ataques a escolas e hospitais, e a recusa de acesso humanitário – subiu pelo quarto ano consecutivo, atingindo as 38.558 ocorrências, de acordo com dados verificados pela ONU.
Segundo o documento, 24.174 crianças foram afetadas, um terço das quais raparigas, com várias milhares sujeitas a múltiplas violações.
A representante especial da ONU para crianças em conflitos armados, Vanessa Frazier, classificou a dimensão e persistência das violações como exigindo “mais do que reconhecimento” da comunidade internacional.
Nesse sentido apelou aos 193 Estados-membros das Nações Unidas para assumirem que a proteção das crianças “não é uma aspiração, mas uma obrigação”.
Pela primeira vez desde que a ONU passou a monitorizar abusos contra crianças em conflitos armados, há 30 anos, o relatório aponta as forças governamentais como responsáveis pela maioria das violações graves registadas.
No topo da lista de 2025 surgem as forças militares e de segurança israelitas, com 12.445 violações registadas, seguidas pela República Democrática do Congo, com 4.114 violações, e por Myanmar, Somália e grupos armados na Nigéria, todos acima das duas mil violações.
Constam ainda da lista negra as forças governamentais do Sudão, do Sudão do Sul, da Síria, e as forças armadas russas na Ucrânia.
A lista inclui também o Hamas e a Jihad Islâmica Palestiniana, responsáveis pelos ataques surpresa de 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, que provocaram cerca de 1.200 mortos, na sua maioria civis, e desencadearam a guerra em Gaza.
Segundo a ONU, colonos israelitas foram responsáveis por 326 violações graves no ano passado, tendo Guterres alertado que, caso estes ataques continuem, os colonos poderão vir a ser incluídos na lista negra.
De acordo com o relatório, as forças governamentais foram “os principais responsáveis” por 6.266 mortes de crianças – um aumento de 34 por cento face ao ano anterior – além de 7.958 feridos.
A ONU confirmou a morte de 2.668 crianças palestinianas em Gaza às mãos das forças israelitas, e de 55 crianças palestinianas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.
A organização recebeu ainda relatos da morte de mais 4.588 crianças em Gaza e de ferimentos em 346 crianças israelitas, casos que se encontram em processo de verificação.
Guterres afirmou estar “chocado com a magnitude das violações graves” cometidas contra crianças nos territórios palestinianos e em Israel, manifestando-se “gravemente alarmado” com o aumento das violações perpetradas pelas forças israelitas e “profundamente alarmado” com a subida acentuada dos ataques de colonos israelitas contra crianças, sem qualquer responsabilização.
O secretário-geral da ONU apelou a Israel para que desenvolva e assine, com as Nações Unidas, um plano com compromissos calendarizados para pôr fim às mortes e mutilações de crianças, bem como aos ataques a escolas e hospitais.
O embaixador de Israel junto da ONU, Danny Danon, acusou Guterres de esbater “a distinção fundamental entre um Estado democrático que luta pela sua sobrevivência” e organizações terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica, em vez de se solidarizar com as vítimas dos ataques de 7 de outubro de 2023.
Danon classificou a postura do secretário-geral como um dos “maiores fracassos morais da história das Nações Unidas”.
Frazier, representante especial da ONU para crianças em conflitos armados, explicou aos jornalistas, na quinta-feira, que o aumento da responsabilidade das forças governamentais se deve, entre outros fatores, à impunidade face ao direito internacional e à mudança nos métodos de combate, cada vez mais concentrados em zonas densamente povoadas, com recurso a armamento como drones e explosivos de grande alcance.
Segundo a responsável da ONU, muitas crianças foram afetadas enquanto fugiam dos combates, procuravam alimentos, água ou cuidados médicos, ou se deslocavam em zonas fortemente contaminadas por restos explosivos de guerra, contribuindo para incapacidades permanentes.
A ONU confirmou ainda o recrutamento e utilização de 6.607 crianças em conflitos armados, com os números mais elevados na República Democrática do Congo, na Nigéria, no Haiti, na Somália e na Colômbia, além de 5.129 raptos de menores, registados sobretudo na Nigéria, na República Democrática do Congo, na Somália, em Myanmar e em Moçambique.
O relatório reporta ainda 1.783 crianças vítimas de violação e violência sexual, com os números mais elevados na República Democrática do Congo, na Nigéria, na Somália, no Sudão e no Haiti.
FIM
Escrito por RafaFM
Israel lidera lista de responsáveis segundo a ONU Quase 25 mil crianças vítimas de abusos em conflitos
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