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Primeira Sociedade de Cardiologia de Timor-Leste documentada em revista científica internacional como modelo de capacitação local

todayJunho 15, 2026 122

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Díli, 15 de junho de 2026 (RAFA.TL) – A Cardiac Society of Timor-Leste – a primeira e única associação nacional de cardiologistas do país, fundada em 2025 – foi descrita num artigo publicado num jornal científico como passo decisivo para a sustentabilidade dos cuidados cardíacos em Timor-Leste.

O artigo, publicado este mês no Global Heart Journal descreve a fundação da estrutura que reúne os nove cardiologistas timorenses e formaliza décadas de cooperação com especialistas australianos.

Um passo decisivo, considera, para a sustentabilidade dos cuidados cardíacos em Timor-Leste, num país onde uma em cada 28 pessoas sofre de doença reumática do coração e a capacidade cirúrgica continua inexistente.

O artigo, “The Creation of the Cardiac Society of Timor-Leste: A Major Step Forward in Timorese Cardiac Health”, assinado conjuntamente por oito médicos timorenses e especialistas australianos do East Timor Hearts Fund (ETHF), documenta pela primeira vez em literatura científica de referência a arquitetura institucional que Timor-Leste construiu na cardiologia – e o caminho que ainda falta percorrer.

A Cardiac Society of Timor-Leste formaliza o que durante décadas funcionou de forma informal e dependente de voluntários externos: uma comunidade de especialistas capazes de definir padrões clínicos nacionais, formar novos cardiologistas, estabelecer protocolos de diagnóstico e tratamento, e interagir em igualdade de condições com organizações internacionais de saúde.

Sem uma sociedade profissional, refere, o desenvolvimento da especialidade fica à mercê da rotatividade de missões voluntárias e da ausência de continuidade institucional.

A sociedade reúne atualmente os nove cardiologistas timorenses que exercem funções no Hospital Nacional Guido Valadares (HNGV), em Díli, e nos hospitais de referência municipais – um número ainda muito reduzido para uma população de 1,3 milhões de pessoas, mas que representa um crescimento significativo face a apenas dois especialistas há uma década.

Timor-Leste tem uma das taxas mais elevadas do mundo de doença cardíaca reumática, com estimativas a apontar para que uma em cada 28 pessoas seja afetada – uma prevalência de 3,5%. A doença atinge sobretudo crianças e jovens com menos de 25 anos e pode causar insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, arritmias, hipertensão pulmonar, incapacidade e morte prematura.

Estudos de ecocardiografia em estudantes em idade escolar estimaram que cerca de 2% das crianças têm doença cardíaca reumática definitiva.

Entre 2022 e 2024, o HNGV registou cerca de 300 casos de cardiopatia congénita, com entre 40 e 60 pessoas a procurar consultas cardíacas diariamente.

Para os doentes com doença cardíaca reumática aguda ou crítica, a cirurgia é geralmente necessária para salvar a vida, mas é indisponível em Timor-Leste, tornando a intervenção no exterior a única opção – a um custo elevado para o governo.

O país consegue responder a doenças de baixo risco como hipertensão ou arritmias ligeiras, mas permanece dependente do exterior para os casos mais graves, não tendo ainda capacidade para cirurgias cardíacas complexas ou colocação de pacemakers.

O ETHF fornece serviços de cardiologia em Timor-Leste desde 2010, conduzindo três clínicas anuais com centenas de doentes.

Durante décadas, este modelo de voluntariado australiano foi a principal – e muitas vezes única – forma de acesso a cuidados cardíacos especializados para os timorenses.

A pandemia de Covid-19 revelou a sua fragilidade estrutural: com o fecho das fronteiras em março de 2020, nenhum doente timorense pôde ser operado na Austrália, e um quarto dos jovens doentes que aguardavam cirurgia cardíaca sofreu eventos cardiovasculares adversos graves, incluindo três mortes.

A criação de uma sociedade profissional nacional é a resposta estrutural a essa vulnerabilidade – transferindo gradualmente a liderança dos cuidados cardíacos para profissionais timorenses, com o apoio internacional a assumir uma função de parceria em vez de substituição.

Em outubro de 2024, o ETHF patrocinou uma visita de formação de duas semanas ao St Vincent’s Hospital Melbourne para Herculano Seixas dos Santos, chefe da Unidade de Cardiologia do HNGV

A CEO do Timor-Leste Hearts Fund, Jane Williams, afirmou que a parceria com o Ministério da Saúde e o HNGV visa “reforçar a capacidade da força de trabalho de saúde cardíaca”, classificando a formação como “uma oportunidade incrível para enriquecer o seu conhecimento num hospital de referência mundial”.

O plano de desenvolvimento do Centro Cardíaco do HNGV prevê, em fases subsequentes, a instalação de um laboratório de cateterismo cardíaco para colocação de cateteres e pacemakers, bem como diagnósticos avançados como TC-angiograma e ressonância magnética cardíaca, e o estabelecimento de um centro de reabilitação cardíaca com unidade de cardiologia pediátrica.

A inclusão de oito médicos timorenses – Diana Marques, Sidonia Ximenes, Ricardo Flavio, Claudia Natalicia Magno, Jacinto da Costa Vinhas, Sidonio Viana, Cesaltinho Leão e Herculano Seixas dos Santos – entre os coautores de um artigo no Global Heart Journal é em si mesma um indicador da maturidade crescente da cardiologia timorense.

Durante décadas, a investigação sobre saúde cardíaca em Timor-Leste foi produzida quase exclusivamente por investigadores externos. A publicação conjunta de 2026 marca uma inflexão nessa trajetória.

A sociedade fornece também o quadro institucional necessário para que Timor-Leste possa candidatar-se a programas internacionais de formação, financiamento e parceria científica em nome próprio – e não apenas como território beneficiário de missões humanitárias.

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Escrito por RafaFM

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