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Barcelona, 12 de junho de 2026 (RAFA.TL) – O Papa Leão XIV visita hoje as Ilhas Canárias para chamar a atenção para o drama dos migrantes que arriscam a vida todos os anos para chegar à Europa, cumprindo um desejo que o Papa Francisco nunca conseguiu concretizar de visitar um dos epicentros do debate migratório europeu.
Leão XIV está a passar os dois últimos dias de uma viagem de uma semana a Espanha no arquipélago espanhol, geograficamente mais próximo de África do que da Península Ibérica e ponto de entrada fundamental para migrantes traficados a partir da África Ocidental.
O Papa norte-americano vai reunir-se com migrantes recentemente chegados, bem como com representantes da Igreja e de organizações humanitárias que os acolhem e trabalham na sua integração na sociedade espanhola.
O momento mais simbólico da visita será a homenagem aos milhares de pessoas que perderam a vida no mar, num porto que em 2020 ficou conhecido como o “cais da vergonha”, devido às condições degradantes em que os migrantes desembarcavam durante um pico de chegadas.
O governo socialista espanhol, que tinha sido fortemente criticado pela crise de 2020, tem contrariado a tendência de outros países europeus e dos Estados Unidos, defendendo a imigração com argumentos económicos e humanitários.
Lançou ainda este ano um processo de regularização de centenas de milhares de imigrantes em situação irregular, com o primeiro-ministro Pedro Sánchez a sublinhar os benefícios para uma economia marcada pelo envelhecimento da população ativa e por uma baixa taxa de natalidade.
Leão XIV já tinha apelado ao reforço da cooperação internacional para prevenir o tráfico de seres humanos, à criação de vias seguras e legais de migração e ao desenvolvimento nos países de origem, de forma que mais pessoas possam optar por ficar.
Num discurso ao Parlamento espanhol no início desta semana – o primeiro de sempre feito por um Papa àquela instituição -, Leão XIV exigiu acolhimento e integração para quem opta por fugir, insistindo na dignidade inerente a estas pessoas.
“A grandeza moral de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar as vidas mais frágeis”, afirmou, num discurso que defendeu também a dignidade dos não-nascidos, dos idosos e dos doentes, tendo recebido uma ovação de pé de sete minutos.
As chegadas de migrantes às Canárias atingiram um pico de cerca de 47 mil pessoas em 2024, mas têm vindo a cair de forma acentuada, com pouco mais de 2 mil chegadas registadas nos primeiros quatro meses de 2026.
À chegada a Las Palmas, o Papa segue para Arguineguín, onde em 2020 o número de chegadas obrigou migrantes a dormir em acampamentos improvisados ao ar livre, num cais que ficou conhecido como “cais da vergonha”.
Muitos passaram semanas a dormir apenas com um cobertor, sem acesso a duches nem a aconselhamento jurídico adequado, com alguns detidos durante semanas – muito além do limite legal de três dias.
A crise envergonhou o governo espanhol, que foi obrigado pelo Provedor de Justiça a encerrar o acampamento e a realojar os migrantes.
Ao tomar conhecimento da crise, o Papa Francisco tinha planeado visitar as Canárias em solidariedade, mas nunca chegou a concretizar a viagem.
Francisco fez do drama dos refugiados uma marca do seu pontificado, seguindo o mandato evangélico de “acolher o estrangeiro”.
Leão XIV tem seguido o mesmo caminho, insistindo na dignidade dos migrantes nos próprios Estados Unidos, seu país natal, num contexto de repressão e deportações em massa promovido pela administração Trump.
No próximo mês, a 4 de julho, dia da Independência dos EUA, o Papa norte-americano vai passar a data na ilha de Lampedusa, na Sicília, outro importante ponto de entrada de migrantes traficados a partir do Norte de África.
Francisco visitou Lampedusa em 2013, na sua primeira viagem fora de Roma, e atirou uma coroa de flores ao Mediterrâneo em homenagem aos milhares de migrantes mortos na travessia. Foi nessa viagem que cunhou a expressão que se tornaria um lema do seu pontificado: a denúncia da “globalização da indiferença” perante o sofrimento dos migrantes.
Segundo o mais recente relatório do Projeto Migrantes Desaparecidos da Organização Internacional para as Migrações (OIM), quase oito mil pessoas morreram ou desapareceram em rotas migratórias em todo o mundo em 2025 – uma média de 21 casos por dia -, uma descida face às cerca de 9.200 mortes registadas em 2024, o valor mais alto desde o início da recolha de dados, em 2014.
As travessias marítimas continuam a ser as mais letais: o Mediterrâneo registou pelo menos 2.108 mortos ou desaparecidos em 2025, enquanto a rota atlântica da África Ocidental para as Ilhas Canárias contabilizou 1.047 vítimas.
A diretora-geral da OIM, Amy Pope, classificou a contínua perda de vidas nas rotas migratórias como “um fracasso global” que “não pode ser aceite como normal”, defendendo o desmantelamento das redes de tráfico de seres humanos, a expansão de vias seguras e legais de migração e o reforço das operações de busca e salvamento.
A organização alertou ainda que os números reais poderão ser muito superiores aos registados, devido a cortes no financiamento humanitário que têm afetado o acesso e a capacidade de monitorização de mortes nestas rotas.
FIM
Escrito por RafaFM
Papa Leão XIV visita Canárias para recordar drama dos migrantes que morrem a tentar chegar à Europa
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