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Tóquio, 11 de Junho de 2026 (RAFA.TL) – Yohei Kono, antigo porta-voz do governo japonês que em 1993 emitiu um pedido histórico de desculpas às mulheres asiáticas vítimas de abusos sexuais pelas forças militares japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, morreu aos 89 anos, anunciaram responsáveis nipónicos.
Kono faleceu na segunda-feira, de velhice, segundo o gabinete do filho, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Taro Kono.
Ao longo da carreira, Yohei Kono deu grande importância à promoção de relações de amizade com a China, a Coreia do Sul e outros países asiáticos que sofreram atrocidades japonesas antes e durante a guerra.
Como secretário-geral do Gabinete em 1993, Kono apresentou desculpas a dezenas de milhares de chamadas “mulheres de conforto”, reconhecendo o envolvimento militar japonês na sua exploração sexual durante a 2ª Guerra Mundial.
A declaração de Kono abriu caminho a um pedido de desculpas mais alargado do então primeiro-ministro Tomiichi Murayama, em 1995, sobre as atrocidades cometidas pelo Japão durante a guerra.
Ambas as declarações foram vistas internacionalmente como sinais de que o Japão tinha feito as pazes com o seu passado, contribuindo para melhorar as relações com os vizinhos asiáticos.
No entanto, tornaram-se impopulares entre os conservadores japoneses, que defendem que o país deve deixar de se centrar em capítulos negativos da história.
Kono enfrentou críticas crescentes e tentativas de desvalorizar a sua declaração de 1993, sobretudo durante a liderança do antigo primeiro-ministro nacionalista Shinzo Abe. Kono alertou que qualquer tentativa de branquear factos históricos “prejudica a reputação do povo japonês”.
Nascido em janeiro de 1937, Kono entrou na política em 1967, após a morte do pai, Ichiro Kono, também deputado proeminente do Partido Liberal Democrata.
Ocupou cargos de relevo, incluindo presidente da câmara baixa do parlamento japonês e presidente do PLD, até se retirar em 2009.
Manteve-se ativo na política nos últimos anos e visitava a China quase todos os anos à frente de delegações políticas e empresariais, ajudando a estabilizar relações sensíveis entre os dois países.
Este ano ainda ponderava uma viagem à China, numa altura em que as relações de Tóquio com Pequim atingiram o ponto mais baixo em anos, depois de a primeira-ministra Sanae Takaichi ter irritado Pequim ao afirmar que uma eventual acção militar chinesa contra Taiwan justificaria o envolvimento de tropas japonesas.
A questão das “mulheres de conforto” tem também uma dimensão diretamente ligada a Timor-Leste.
Após o desembarque de forças australianas em Díli, em dezembro de 1941, o Japão invadiu o então Timor Português a 20 de fevereiro de 1942, violando a neutralidade portuguesa. A ocupação prolongou-se até 5 de setembro de 1945, com a rendição japonesa após os bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui.
Além de dezenas de milhares de mortos – estimativas apontam para cerca de 40 a 60 mil vítimas entre timorenses e portugueses -, a invasão deixou marcas profundas de violência sexual no território.
Segundo organizações de direitos humanos, terão existido cerca de 20 “estações de conforto” em Timor, numa altura em que o exército japonês exigia, segundo relatos históricos, uma escrava sexual por cada 70 militares.
A vergonha e o estigma social silenciaram durante décadas a maioria das vítimas timorenses, pelo que não há números oficiais sobre quantas mulheres foram forçadas à escravatura sexual.
Timor-Leste integra-se assim num grupo mais vasto de territórios ocupados pelo Império do Japão – que incluiu a Coreia, a China, as Filipinas, a Tailândia, o Vietname, a Malásia, Taiwan e as então Índias Orientais Neerlandesas – cujas mulheres foram exploradas nestes “postos de conforto”.
Em fevereiro de 2023, a Associação da Lei, Direitos Humanos e Justiça (HAK) assinalou em Díli o 81.º aniversário da invasão japonesa, exigindo que as autoridades de Tóquio reconheçam formalmente os direitos das vítimas timorenses.
O diretor-executivo da HAK, Sisto Freitas, classificou então a escravatura sexual como “um crime contra a humanidade” e “um dos piores crimes do mundo”.
Em 2013, a Coligação Timor-Leste e Japão, que reúne dezenas de organizações de direitos humanos, tinha já apelado formalmente a Tóquio para o início de negociações de compensação financeira para as vítimas timorenses.
Até hoje, e ao contrário do que sucedeu noutros países da região – nomeadamente na Coreia do Sul, onde tribunais chegaram a condenar o Estado japonês ao pagamento de indemnizações a sobreviventes -, as mulheres timorenses nunca receberam um pedido oficial de desculpas nem qualquer compensação por parte do Governo japonês.
FIM
Escrito por RafaFM
antigo responsável japonês que pediu desculpa às "mulheres de conforto" morre aos 89 anos Yohei Kono
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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