Destaques

Across Words: três gerações timorenses contam a sua história na Bienal de Veneza

todayMaio 5, 2026 54 2

Fundo
share close

Díli, 5 de maio de 2026 (RAFA.TL) – A minha vida mudou por causa da arte; e acredito que a arte pode ser uma ferramenta para mudar o país.” É com estas palavras que Juventino Madeira, um dos três artistas timorenses presentes na 61.ª Bienal de Arte de Veneza, resume o espírito de “Across Words”, o pavilhão de Timor-Leste que abre ao público a 7 de maio no Arsenale.

A segunda participação de Timor-Leste na Bienale, depois da estreia em 2024, reúne obras de Verónica Pereira Maia, tecelã e ativista com mais de 90 anos, do músico e artista sonoro Etson Caminha e do realizador e artista multimédia Juventino Madeira – três gerações cujos percursos atravessam a resistência, a independência e a construção de um país.

Para Etson Caminha, a presença em Veneza tem um significado que transcende o individual. “Como artista de um país jovem que poucas pessoas conhecem, representar Timor-Leste é uma grande honra. Podemos levar a nossa história, os nossos sons, a nossa cultura, as nossas tradições ao mundo”, declarou o artista, natural de Lospalos, que cresceu numa aldeia em plena ocupação indonésia e encontrou na arte o caminho que a guerra lhe havia bloqueado.

Juventino Madeira, artista autodidata que chegou à arte através do cinema, partilha da mesma convicção.

“Cada passo é desafiante, mas temos um sonho e uma missão. Timor está em desenvolvimento, e a arte é valiosa dentro da sociedade, como instrumento educativo. É algo que alarga horizontes, ajuda a curar e desenvolve diferentes formas de ver o mundo”, afirmou.

O percurso de Etson Caminha até Veneza começou nas ruas de Lospalos durante a ocupação indonésia.

“Cresci numa aldeia que estava na lista negra, e muitos dos miúdos de lá envolveram-se na clandestinidade a ajudar os guerrilheiros”, recordou o artista.

Após a guerra, integrou uma comunidade de jovens sem perspetivas que viria a tornar-se a banda Galaxy.

“Não tínhamos guitarra, nem dinheiro para alugar um estúdio para ensaiar. Osme Goncalves vendeu as calças e os sapatos para podermos alugar um estúdio”, contou Caminha, sublinhando que foi esse ambiente de escassez e determinação que moldou a sua relação com a arte.

“Via-se o caminho, tínhamos o talento, a ambição, mas precisávamos apenas de ajuda.” O artista acabaria por encontrá-la na Arte Moris, em Díli, onde iniciou formalmente o seu percurso artístico.

No centro do pavilhão está Tais Don, de Verónica Pereira Maia, cinco painéis de tais – o tecido tradicional timorense – onde estão inscritos os nomes das 271 vítimas do massacre de Santa Cruz, perpetrado em Díli a 12 de novembro de 1991.

A obra, que a artista começou a tecer em 1994 e concluiu poucos meses antes do Referendo de Independência de agosto de 1999, é apresentada pela primeira vez na Europa.

“Porque amo o meu povo e o meu país, fiz estes tais como memorial àqueles jovens que morreram e para mostrar a história do que lhes aconteceu”, declarou Verónica Pereira Maia, cujo nome tradicional é Buat Salvak, originária de Fohorem, em Covalima.

A artista recorda que apresentou a obra em várias exposições na Austrália durante os anos de ocupação, tecendo em público – “na relva fora do MCA, na Casula Powerhouse, na universidade” – numa altura em que, nas suas palavras, “não havia como saber se Timor se tornaria independente ou quando poderíamos recuperar o nosso país”.

Para Juventino Madeira, o Tais Don encarna algo que ultrapassa o testemunho pessoal. “Não tenho uma relação pessoal com aqueles que perderam a vida neste massacre, mas sinto que o seu espírito, a sua luta, nos diz respeito. Temos o espírito dessa luta, que ainda carregamos, e isso ajuda-nos a preparar para a vida.”

A instalação sonora CUALE (Flow), de Etson Caminha, incorpora as vozes de dois anciãos – Lia Nain, transmissores da lei dos antepassados – provenientes de Lospalos e Maubissi, que recebem os visitantes com palavras sagradas nas suas línguas locais.

“O pavilhão vai ser a nossa casa durante alguns meses, e quisemos incluir os nossos rituais tradicionais de boas-vindas para que, quando os visitantes chegam ao nosso lugar, à nossa casa, chamemos os antepassados a protegê-los e a abençoar a atividade do pavilhão”, explicou Caminha.

O artista descreve a sua obra como uma viagem sonora que parte da natureza e percorre a história: “Os sons que crio remontam às raízes de todas as coisas, aos elementos da natureza. Em CUALE (Flow) experimento também ferramentas áudio contemporâneas para criar um choque de sons. Toda essa história flui junta e nunca termina.”

Juventino Madeira assina Fraze ne’ebé seidauk hotu (An Unfinished Sentence), uma instalação de vídeo protagonizada por uma jovem mulher que representa a mãe-terra e as gerações futuras – e que é, na tradição timorense, tecnicamente sua mãe, pois a irmã da mãe é também mãe.

“O título sugere que o futuro de Timor-Leste ainda está a ser construído – é algo que se desdobra sempre”, explicou o artista.

“A narrativa começa com uma jovem que caminha ao amanhecer da floresta até à cidade, até às luzes noturnas, antes de regressar ao amanhecer na floresta. Explora como Timor-Leste atravessou a escuridão de uma longa guerra até encontrar a luz, precisando de se adaptar à cultura moderna, com um espírito de vida que nunca pode ser abatido.”

O artista recorda o Díli que encontrou após a independência como paisagem de memória viva. “Quando ganhámos a independência, as paredes ainda estavam cobertas de palavras de luta, de raiva, de amor, de esperança e de felicidade, ao lado de desenhos de heróis da resistência”, disse Madeira, para quem essa herança visual continua a alimentar a sua prática artística.

Essa ligação às raízes manifesta-se também nos detalhes da instalação.

No vídeo, a figura feminina aparece a mastigar betelnut – gesto carregado de significado ritual. “Cada cerimónia começa e termina com betelnut, por isso é representativo das raízes de Timor-Leste”, sublinhou o artista.

A participação de 2026 representa, segundo Etson Caminha, uma responsabilidade geracional.

“As presenças de Timor-Leste na Bienal de Veneza em 2024 e agora em 2026 abriram caminho para a geração mais jovem e para outros artistas serem ambiciosos e trabalharem com afinco, porque tudo é possível.”

A 61.ª Bienal de Arte de Veneza decorre de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. O pavilhão de Timor-Leste, comissariado por Jorge Soares Cristovão, Secretário de Estado das Artes e da Cultura, tem curadoria de Loredana Pazzini Paracciani.

RAFA.TL

 

Escrito por RafaFM

Avaliação

Quem Somos

Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.

Contactos
error: Content is protected !!