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Dili, 08 de abril de 2026 — O Governo de Timor-Leste solicitou o apoio das Forças Armadas Portuguesas para a trasladação, por via aérea, dos restos mortais de três prelados católicos sepultados em Portugal, segundo documentos a que a RAFA.tl teve acesso.
Em causa está a trasladação dos féretros de D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro e do Monsenhor Martinho da Costa Lopes, figuras centrais da história da Igreja Católica em Timor-Leste ao longo de mais de quatro décadas.
O pedido de apoio foi formalizado em cartas enviadas em fevereiro e esta semana pelo ministro da Administração Estatal, Tomás do Rosário Cabral, ao ministro da Defesa Nacional português, Nuno Melo.
Na carta, Tomás do Rosário Cabral apela ao espírito de cooperação e fraternidade entre Portugal e Timor-Leste, salientando que o envolvimento das Forças Armadas Portuguesas no transporte dos féretros “revestir-se-ia de profundo significado histórico e simbólico” e constituiria “eloquente testemunho da solidariedade entre os dois povos”.
Entrou na diocese a 09 de dezembro de 1945, encontrando-a devastada e com a maior parte das estruturas pastorais em ruínas como resultado da ocupação japonesa.
Durante o período em que esteve à frente da diocese, o número de católicos passou de cerca de 30 000 para mais de 150 000, e o número de alunos das escolas missionárias subiu de 1 500 para 8 000.
Resignou em 1967 por motivos de saúde e regressou aos Açores, onde faleceu a 15 de abril de 1997, tendo sido sepultado no cemitério de São Joaquim, em Ponta Delgada.
Profundamente perturbado pelas mortes em massa dos timorenses durante a invasão indonésia de dezembro de 1975, entrou em colapso nervoso e pediu a sua resignação ao Papa Paulo VI em maio de 1977, pedido que lhe foi concedido em outubro desse ano.
Regressou a Portugal, onde viveu até falecer em Évora, a 27 de julho de 2002.
Monsenhor Martinho da Costa Lopes, administrador apostólico de Díli entre 1977 e 1983, é a figura mais politicamente marcante do trio.
O seu nome está associado a uma reorientação histórica da Igreja timorense para a cultura local. Durante os anos em que liderou a diocese, a Igreja cresceu a um ritmo nunca visto em séculos de atividade missionária portuguesa.
Face à ocupação indonésia, tornou-se um dos mais corajosos defensores dos direitos humanos do povo timorense.
Denunciou o recrutamento forçado de 50 000 homens e rapazes para formar uma cadeia humana destinada a esmagar a resistência da Fretilin, e condenou publicamente o exército indonésio pelo massacre de 500 mulheres e crianças no Santuário de Santo António, em Lacluta, em setembro de 1981.
Pressionado pelas autoridades indonésias, acabou por abandonar Timor em junho de 1983 e instalar-se em Portugal, onde faleceu.
O processo de transladação tem vindo a ser debatido em Timor-Leste ao longo do tempo.
Em fevereiro de 2026, o Governo e a Igreja chegaram a acordo para criar uma comissão conjunta com vista a organizar o processo, e o presidente da Conferência Episcopal Timorense, D. Vírgilio Cardeal do Carmo da Silva, confirmou que a intenção era realizar a transladação em setembro deste ano. A ideia teria sido também partilhada com o Chefe de Estado, José Ramos-Horta.
A formalização governamental chegou com um despacho assinado pelo Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão em 2 de março, que criou a Comissão Interministerial para a Transladação dos Restos Mortais de Prelados Católicos que exerceram funções pastorais em Timor-Leste.
No início de abril, o Governo deliberou autorizar uma despesa de 600 mil dólares americanos para cobrir todo o processo de transladação.
A Comissão Interministerial é presidida pelo ministro da Administração Estatal e integra ainda o ministro das Obras Públicas, Samuel Marçal, e o ministro do Planeamento e Investimento Estratégico, Gastão Francisco de Sousa.
Compete-lhe definir a estratégia e o calendário do processo, articular com as autoridades portuguesas os procedimentos administrativos, diplomáticos e canónicos necessários, garantir a dignidade e solenidade das cerimónias fúnebres e submeter relatórios de progresso ao Primeiro-Ministro.
O despacho determina ainda que a Comissão apresente uma previsão orçamental no prazo de dez dias a contar da sua publicação, e que submeta um relatório final ao chefe do executivo no prazo de trinta dias após a conclusão integral do processo.
Além dos três bispos sepultados em Portugal, a Comissão tem igualmente a seu cargo a transladação dos restos mortais de D. Alberto Ricardo da Silva, Bispo de Díli entre 2004 e 2015, atualmente inumado no cemitério dos sacerdotes do Seminário de Ailok-Laran, em Díli.
Está previsto que os féretros provenientes de Portugal partam de Lisboa no final de agosto ou início de setembro, numa operação que envolve coordenação entre as autoridades civis e eclesiásticas dos dois países.
A Comissão Interministerial timorense tem estado a estabelecer os contactos técnicos e logísticos necessários com as contrapartes portuguesas para assegurar que todos os detalhes operacionais fiquem acertados com a devida antecedência.
FIM
Escrito por RafaFM
Timor-Leste pede apoio português para trasladação dos restos mortais de três prelados católicos
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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