Ouvir RAFA Ritmo, Voz e Coração de Timor
DÍLI, 23 de março de 2026 (RAFA.tl) – Timor-Leste é o país da CPLP que avalia de forma mais positiva o desenvolvimento do seu país, com um otimismo maior do que aquele com que avaliam a sua própria vida pessoal, segundo um estudo divulgado no Brasil.
O “Barómetro da Lusofonia”, primeiro estudo transnacional de opinião pública sobre os países de língua oficial portuguesa nota que os timorenses são os cidadãos da CPLP que registam o maior nível de satisfação com a democracia entre os oito países estudados.
Numa escala de 0 a 10, os timorenses atribuem ao desenvolvimento social e económico do seu país uma média de 6,3 – o valor mais elevado de toda a Comunidade Lusófona -, superando Portugal (6,2), Brasil (5,6) e Moçambique (5,4).
Angola regista o resultado mais baixo, com 4,4.
O dado é particularmente revelador quando comparado com a satisfação que os timorenses sentem pela própria vida pessoal: 6,0 pontos em média.
Timor-Leste é o único país em que a avaliação do país supera a avaliação da vida individual – em todos os outros, a perceção pessoal é superior à perceção nacional.
Os autores do estudo interpretam este padrão como reflexo de uma leitura longitudinal da realidade: os timorenses comparam o presente não com os países mais desenvolvidos, mas com o ponto de onde vieram – décadas de ocupação, violência e desorganização institucional antes da independência conquistada em 2002.
Este otimismo projeta-se igualmente no futuro: 87% dos timorenses afirmam que o país vai “melhorar” ou “melhorar muito” nos próximos doze meses, o valor mais elevado da Comunidade, com apenas 1% de pessimistas.
No outro extremo, o Brasil regista a maior proporção de quem acredita que a situação vai piorar (37%).
Na valorização da democracia, Timor-Leste volta a liderar: 99% dos inquiridos consideram o voto “muito importante” ou “importante”, o resultado mais alto entre os oito países – acima de Portugal (96%) e Cabo Verde (93%).
A satisfação com o funcionamento da democracia é também a mais elevada: 75% dos timorenses dizem-se satisfeitos, comparados com 61% dos portugueses. O estudo nota que, no caso timorense, a democracia é percecionada como uma conquista profundamente associada ao processo de independência nacional.
A participação eleitoral declarada acompanha esta tendência: 75% dos timorenses afirmam votar sempre, com uma participação efetiva de 79,3% nas eleições legislativas de 2023, segundo a Comissão Eleitoral Nacional – um dos níveis mais elevados de toda a região Ásia-Pacífico.
O quadro não é, contudo, isento de tensões.
As principais preocupações dos timorenses centram-se em saúde (59%), educação (59%) e desemprego (58%). O país é ainda aquele onde a corrupção surge de forma mais acentuada como problema relevante, mencionada por 39% dos inquiridos – o valor mais alto da Comunidade.
Em termos socioeconómicos, o PIB per capita de Timor-Leste é de aproximadamente 1.509 dólares (dados de 2023), com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,63, classificado como médio pelo PNUD. Por outro lado, o Índice de Gini do país – que mede a desigualdade – é de 28,7, o mais baixo de toda a Comunidade Lusófona, o que indica uma distribuição de rendimentos relativamente equitativa.
O Barómetro da Lusofonia traça um panorama de contrastes e convergências no espaço lusófono. Em termos de satisfação com a vida pessoal, Brasil (7,9) e Portugal (7,4) lideram o ranking, enquanto Angola regista a média mais baixa (5,3) e é também o país com maior proporção de avaliações expressamente negativas sobre o desenvolvimento nacional.
Transversal à Comunidade, o estudo identifica uma dissociação consistente entre a perceção da vida individual e a avaliação do contexto nacional: em quase todos os países, os cidadãos veem a sua trajetória pessoal de forma mais favorável do que a situação do país. Esta distância é especialmente pronunciada no Brasil, onde a diferença entre as duas médias atinge 2,3 pontos.
Apesar das dificuldades, o otimismo em relação ao futuro é uma característica partilhada por grande parte da Comunidade. Mesmo em países com avaliações mais críticas do presente, a maioria dos inquiridos acredita que o país vai melhorar. A exceção é Portugal, onde o olhar sobre o futuro próximo é mais contido.
No plano das preocupações, saúde, educação e desemprego formam uma tríade recorrente em praticamente todos os países. Portugal é o único onde a imigração emerge como problema nacional relevante (17% de menções). Na Guiné-Bissau, saúde (85%) e educação (78%) atingem os valores mais elevados da Comunidade para qualquer problema identificado. Em Moçambique, destaca-se a preocupação com instabilidade política e conflitos armados (17%).
O Barómetro da Lusofonia é um estudo de opinião pública transnacional, longitudinal e bienal, concebido para acompanhar de forma sistemática as perceções, valores e dinâmicas culturais, sociais, económicas e políticas dos povos de língua portuguesa.
Inspirado em instrumentos similares como o Eurobarómetro e o Latinobarómetro, preenche uma lacuna histórica: até à sua criação, a Comunidade Lusófona era a única grande comunidade linguística sem um dispositivo equivalente de análise comparativa regular.
A iniciativa foi idealizada pelo professor António Lavareda, e a sua primeira edição cobre oito países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A Guiné Equatorial não integrou esta edição por razões operacionais e logísticas, estando a sua participação prevista para a próxima.
Do ponto de vista metodológico, foram realizadas 5.688 entrevistas individuais – presenciais (com recurso a tablets e georreferenciamento) ou por telefone via sistema CATI -, com questionários estruturados e adaptados à realidade linguística e socioeconómica de cada país.
A recolha de dados decorreu entre setembro e novembro de 2025. As amostras nacionais foram desenhadas para garantir representatividade por sexo, idade e distribuição geográfica.
No caso de Timor-Leste, a pesquisa foi realizada apenas na capital Díli, que representa 24,2% da população do país, com uma amostra de 300 entrevistas e uma margem de erro máximo de 5,8 pontos percentuais.
O trabalho de campo foi coordenado pela Duplimétrica e realizado por parceiros nacionais em cada país, entre os quais a Insight Timor-Leste, a Pitagórica (Portugal e Brasil), a Intercampus e a Isope. O estudo explora cinco grandes eixos temáticos: condições de vida e expectativas; valores sociais e identidade; democracia e participação política; intercâmbio cultural; e percepções sobre a CPLP.
FIM
Escrito por RafaFM
Timor-Leste lidera avaliação do desenvolvimento no espaço lusófono e destaca-se pelo otimismo
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
Copyright Rafa.tl - Desenvolvido por Justweb.pt