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DÍLI, 16 de março de 2026 (RAFA.tl) – As economias do Sudeste Asiático estão a sentir crescentes impactos económicos devido aos efeitos da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão, com vários Governos a adotarem medidas para minimizar os efeitos.
Notícias Relevantes: Impactos económicos da guerra EUA/Israel contra Irão continuam a alastrar no Sudeste Asiático
As Filipinas, por exemplo, já decretaram uma semana de trabalho de quatro dias e impuseram cortes de 20% no consumo energético governamental, enquanto a Indonésia cortou a produção de níquel – mais de metade do fornecimento mundial – por falta de enxofre do Golfo Pérsico. Em as reservas de gás natural liquefeito estão garantidas apenas até ao final do mês, e o Paquistão tem reservas de crude para dez dias.
Uma situação que se deve, em grande parte, ao facto de mais de 200 petroleiros e 170 navios porta-contentores estarem parados junto ao Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial e um terço dos fertilizantes globais – e que o Irão mantém bloqueado a navios norte-americanos e seus aliados.
No 16.º dia da guerra lançada pelos Estados Unidos e por Israel a 28 de fevereiro, o balanço de vítimas ultrapassa os 1.444 mortos no Irão – incluindo 168 crianças numa escola primária —, com 18.551 feridos e 3,2 milhões de deslocados.
Nas últimas 48 horas, os EUA destruíram a ilha de Kharg, o principal terminal petrolífero iraniano, bombardearam Isfahan, e o Presidente Donald Trump recusou qualquer negociação de paz. Teerão respondeu em igual medida: “Nunca pedimos um cessar-fogo”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Araghchi.
Já a Agência Internacional de Energia classificou este conflito como “a maior interrupção de oferta da história do mercado petrolífero”
O sudeste asiático é a região que mais impacto económico está a sentir, já que cerca de 75 a 80% de todo o petróleo que atravessa o Estreito de Ormuz tem como destino países asiáticos, e o bloqueio está a provocar uma crise energética, inflacionária e logística.
Nas Filipinas, o Presidente Ferdinand Marcos Jr. decretou semana de trabalho de quatro dias para todos os serviços governamentais não essenciais, com uma redução obrigatória de 10 a 20% no consumo de eletricidade e combustível. O país importa praticamente todo o petróleo que consome, e a inflação atingiu o nível mais elevado dos últimos 13 meses. As Filipinas são amplamente consideradas pelos economistas o país mais vulnerável da Ásia-Pacífico às pressões inflacionistas desta guerra, dado que os preços dos combustíveis são determinados pelo mercado e os subsídios estatais são escassos.
Na Indonésia, o maior produtor mundial de níquel – responsável por mais de 50% da oferta global —, as empresas mineiras anunciaram cortes de produção logo na primeira semana do conflito. A razão é direta: os países do Golfo fornecem 75% do enxofre que estas empresas utilizam no processamento do metal. Sem esse enxofre, o refinamento de níquel fica comprometido, com consequências em cadeia para a produção mundial de baterias de veículos elétricos e aço inoxidável.
As restantes economias da região respondem à crise em modo de emergência. Taiwan, que importa mais de 90% das suas fontes de energia fóssil, informou que as suas reservas de gás natural liquefeito (GNL) chegam apenas até ao final de março e está a negociar entregas antecipadas com fornecedores dos EUA e da Austrália. O Japão, quarta maior economia do mundo, com 87% das suas importações de combustível fóssil dependentes do Golfo, criou um gabinete especial de coordenação energética em Tóquio. A Coreia do Sul, que recebe 81% das suas importações energéticas da região, ativou protocolos de emergência e está a estudar a libertação de reservas estratégicas e o reforço de linhas de crédito para a compra de crude de fontes alternativas. O Paquistão, com fronteira com o Irão, tem reservas de crude para apenas dez dias e pondera tornar o teletrabalho e as aulas universitárias online obrigatórios para poupar combustível.
A agência de notação financeira Fitch classificou o conflito como tendo um impacto creditício “negativo e crescente” para portos e aeroportos da Ásia-Pacífico, em particular se a perturbação nas rotas marítimas e no espaço aéreo do Golfo se mantiver. Os portos indianos enfrentam volumes decrescentes, congestionamento e custos logísticos acrescidos. A Índia merece atenção particular: produz 60% das vacinas do mundo e serve-se do aeroporto de Dubai e do porto de Jebel Ali como nó logístico central para a distribuição de medicamentos genéricos e vacinas para todos os continentes. Com esses dois pontos nevrálgicos perturbados pelos ataques iranianos, os custos de carga aérea indianos dispararam 400% – segundo a MUFG Research —, comprometendo o acesso a medicamentos e vacinas em dezenas de países.
Nos mercados financeiros regionais, o peso filipino, o won sul-coreano e a rupia indiana estão a depreciar-se, agravando os défices comerciais de países já fragilizados. As bolsas asiáticas recuaram de forma generalizada, enquanto o ouro subiu para perto dos 5.400 dólares por onça. Mais de 400.000 contentores com componentes para chips e baterias de veículos eléctricos estão retidos em navios no Golfo Pérsico. As grandes transportadoras marítimas, como a Maersk, redirecionaram as suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança, o que acrescenta 10 a 15 dias de viagem e cerca de um milhão de dólares de combustível extra por trajetória.
Analistas identificam três vectores adicionais de risco sistémico para a economia mundial. O primeiro é o dos fertilizantes: Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os maiores exportadores mundiais de fertilizantes azotados, produzidos a partir de gás natural. A Qatar Energy suspendeu a produção de ureia após cortes no fornecimento de gás provocados por ataques de drones e mísseis. Com um terço do fornecimento mundial de fertilizantes a escoar pelo Estreito de Ormuz, os preços dispararam: no porto de Nova Orleães, a tonelada métrica passou de 516 para 683 dólares. O calendário é particularmente adverso, dado que os agricultores do hemisfério norte se encontram exatamente agora na época de sementeira. O Programa Mundial de Alimentação da ONU alertou para um risco de fome global nas populações mais vulneráveis.
O segundo vetor é o das cadeias farmacêuticas: o porto de Jebel Ali e o aeroporto internacional de Dubai – ambos atingidos por ataques iranianos – são nós logísticos centrais para a distribuição mundial de medicamentos genéricos e vacinas, em grande parte produzidos na Índia. O terminal Emirates SkyPharma, concebido especificamente para transporte de produtos farmacêuticos em cadeia de frio, viu as suas operações severamente perturbadas. As rotas alternativas são mais lentas, mais caras e de capacidade inferior, o que poderá elevar o preço e reduzir a disponibilidade de medicamentos em dezenas de países.
O terceiro vector é o dos metais industriais e semicondutores: o Médio Oriente fornece 24% do enxofre mundial, subproduto do refinamento de petróleo e gás, essencial para a extração de níquel e cobre – por sua vez fundamentais para a produção de semicondutores, baterias e aço inoxidável. Com o fornecimento regional cortado, as cadeias de produção de chips, smartphones, computadores e veículos elétricos enfrentam uma pressão adicional que os analistas comparam ao choque de semicondutores da pandemia de covid-19, agravado pela procura de chips para sistemas de inteligência artificial.
No que se refere aos combates, os ataques dos últimos dois dias marcaram uma nova escalada na operação que Washington designou Epic Fury. As forças norte-americanas e israelitas visaram a cidade industrial de Isfahan nas primeiras horas de domingo, matando pelo menos 15 pessoas e ferindo várias dezenas, numa das ofensivas mais destruidoras sobre instalações militares e infraestruturas no centro do Irão desde o início do conflito. Em paralelo, Israel lançou uma nova vaga de ataques no oeste do Irão – o exército israelita contabiliza já mais de 7.000 ataques desde o início da guerra – enquanto o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) anunciou a sua 50.ª vaga de operações de retaliação contra bases dos EUA nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein e no Kuwait.
A acção mais marcante do fim de semana foi o bombardeamento norte-americano da ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, por onde escoa cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano. O Presidente Trump afirmou, em declarações à NBC, que os EUA “demoliram totalmente a maior parte da ilha” e sugeriu, em tom que surpreendeu aliados e analistas, que poderão atingi-la “mais algumas vezes, por diversão”.
Os especialistas do JPMorgan calculam que, se os cais de carregamento e os oleodutos permanecerem intactos, a capacidade de exportação iraniana poderá rondar os 1,5 a 1,7 milhões de barris por dia. O Irão respondeu de imediato, declarando que qualquer ataque à infraestrutura petrolífera acarretará retaliação contra instalações energéticas ligadas aos EUA na região. Um ataque de drone intercetado provocou nesse mesmo dia um incêndio no terminal de exportação de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, forçando a suspensão temporária do carregamento de crude.
Dois drones atingiram o complexo da Embaixada dos EUA em Bagdad, sem baixas entre o pessoal americano, mas Washington ordenou a saída imediata de todos os cidadãos norte-americanos do Iraque e do Omã. O Irão ameaçou pela primeira vez atacar infraestruturas dos Emirados Árabes Unidos, pedindo a evacuação de três portos que Teerão acusa de servir de apoio logístico às operações militares norte-americanas. A Arábia Saudita intercetou 10 drones sobre Riade e a região leste; o Qatar intercetou quatro mísseis balísticos e vários drones; o Kuwait ativou os sistemas de defesa antiaérea na base aérea Ahmad al-Jaber.
FIM
Escrito por RafaFM
Economias do Sudeste Asiático sentem crescentes impactos da guerra no Irão
Fundada por Nilton e Akita nos momentos difíceis pós-referendo, a Rádio Rafa nasceu como um símbolo de esperança e reconstrução em Timor-Leste. Foi a primeira rádio a surgir após a independência, reunindo jovens, espalhando alegria e dando voz a uma nova geração, mesmo quando muitos ainda viviam em casas feitas de cinzas, após a destruição provocada pela violência que se seguiu ao referendo de 1999, no qual os timorenses decidiram pela separação da Indonésia e pela construção de um país independente e livre.
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