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Crédito ao setor privado em Timor-Leste sobe 14,1%, mas banca financia sobretudo consumo e construção

todayMarço 23, 2026 76 16

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DÍLI, 23 de março de 2026 (RAFA.tl) – O Banco Central de Timor-Leste considera que o sistema bancário timorense se mantém sólido e líquido, mas alerta que o aumento do crédito não está a chegar, em escala suficiente, aos setores produtivos que poderiam diversificar a economia.

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Os dados fazem parte do relatório económico anual do regulador timorense, divulgado hoje, que nota que o crédito ao setor privado em Timor-Leste cresceu 14,1% em 2025, atingindo cerca de 724,4 milhões de dólares, num sinal de expansão da atividade financeira.

Ao mesmo tempo, o sistema bancário apresenta níveis confortáveis de capitalização e liquidez, com ativos totais na ordem dos 2,85 mil milhões de dólares e um rácio de crédito malparado de apenas 2,4%.

Em termos de estabilidade financeira, o quadro é, considera, relativamente favorável.

Ainda assim a principal mensagem do Banco Central não é de conforto, e sim de desalinhamento. Cerca de 45% do crédito continua concentrado no consumo individual, enquanto comércio e finanças absorvem 26% e a construção mais 21%.

Em contrapartida, setores como agricultura, indústria transformadora e turismo continuam com acesso muito limitado ao financiamento bancário, o que trava a diversificação económica e reduz a capacidade de criação de valor interno.

O relatório assinala também que as taxas de juro permanecem elevadas, com uma média de cerca de 10,4% nos empréstimos, o que dificulta o investimento produtivo, sobretudo por parte das pequenas e médias empresas.

Entre os fatores apontados estão a fragilidade dos mecanismos de colateral, a ausência de títulos de propriedade claros em grande parte do território e a perceção de risco nos setores mais expostos à produção e exportação.

Também a rentabilidade do setor bancário recuou em 2025, com o retorno sobre o capital a cair para 9,6%, abaixo dos níveis do ano anterior.

O Banco Central defende por isso uma mudança de foco: mais do que aumentar o volume global de crédito, importa reorientar a intermediação financeira para os setores que possam sustentar crescimento, exportações e emprego qualificado.

Sem essa mudança, a banca continuará sólida, mas a economia continuará pouco transformada.

De ressaltar ainda no relatório a entrada no sistema bancário timorense de uma nova instituição em 2025, o Banco do Nosso Futuro, ainda que o BCTL alerte para o facto da inclusão financeira e a afetação do crédito continuarem desalinhadas com as necessidades da economia real.

O sistema financeiro do país fechou 2025 com oito instituições, entre seis bancos comerciais e duas outras instituições de depósito, num ano em que os ativos totais cresceram 7,1% para 2,852 mil milhões de dólares.

O reforço de capital do sistema, que subiu 39,4%.

A rentabilidade da banca deteriorou-se em 2025, com o lucro líquido a cair 12,7%, o retorno sobre ativos a descer para 1,4% e o retorno sobre o capital a cair para 9,6%.

Os depósitos continuam a ser a principal fonte de financiamento, representando 78,8% do passivo, e cresceram 3,2% em 2025.

O relatório assinala ainda uma mudança na composição, com maior peso dos depósitos a prazo. Ainda assim, o sistema financeiro permanece pouco inclusivo em termos produtivos.

O score de 29,7 em serviços financeiros no B-READY evidencia, segundo o Banco Central, fragilidades na intermediação, no enquadramento de garantias e no acesso ao crédito por parte das PME.

O Banco Central reconhece avanços nas plataformas digitais e nos canais bancários, mas considera que a digitalização financeira continua aquém do necessário.

Sem melhores infraestruturas digitais, sem maior segurança jurídica sobre colaterais e sem instrumentos de mitigação de risco, a liquidez bancária continuará a circular sobretudo por atividades de retorno mais imediato, deixando de fora os setores que poderiam diversificar e modernizar a economia.

FIM

 

Escrito por RafaFM

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